sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Entulhos

Deitado, sem fazer nada, percebo: estou cheio demais. Não é o saco, nem é o estômago. Mas estou cheio demais. Contatos no limbo, cd's mudos, livros empoeirados, memórias que não me agradam mais, amizades em coma. Abro gavetas e me deparo com anotações de 2010, reviro uma bermuda e cai o ingresso do cinema de semana passada, olho o fundo do guarda-roupas e tenho flashes desgastantes. Numa casa, essas coisas seriam aquelas paredes descascadas e carentes de uma nova pintura, o quarto onde se guarda bugingangas, o espelho rachado, a sobra inútil do papel higiênico, a lâmpada queimada.

Preciso mesmo é me desfazer de tudo isso, fazer uma fogueira, perder esses quilos a mais. Desmembrar esse polvo de vinte tentáculos.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ateu também é gente

NOSSA, ele é ateu. COMO ASSIM ela não acredita em Deus? Ai, cruzes, nunca vai ser feliz desse jeito. Credo!

Esses são alguns dos comentários que já ouvi em relação a quem é ateu. É realmente assustador como grande parte das pessoas lidam com isso, como elas detestam quem não tem fé. Elas se assustam, se afastam, fazem cara feia, não entendem. Mas como assim não acredita em Deus? Todos têm que acreditar. É o certo. Não é?

Certo não. É o normal, o comum, o habitual. E quando as coisas vão contra isso, as pessoas fazem um alvoroço, relutam, prejulgam, xingam. E é daí que começam a surgir as ideias de que os descrentes serão infelizes, de que vai dar tudo errado na vida deles porque são seres amargos, ruins, sem luz, sem Deus no coração.

Pra essas pessoas, digo: vocês realmente não sabem o que falam. Vocês estão muito errados. Muito mesmo. Vocês estão errados por acharem que o outro está errado simplesmente por não acreditar no que vocês acreditam. Vocês estão errados e devem, urgentemente, começar a desconstruir essas falsas verdades desprezíveis que andam gritando aos quatro ventos.

Vou ser gentil e ajudar nessa desconstrução fazendo uma revelação bombástica pra vocês: eu tenho uma amiga que é ateia. MEU DEUS. ATEIA. Sim, ateia. Sem agradecimentos pelo pão de cada dia, sem preces antes de dormir, sem missa aos domingos. Sem fé, sem Deus. Ateia. E adivinhem só? Ela também ri, ela também se emociona, ela é sensível. Ela é uma pessoa maravilhosa e tem um bom coração. E acreditem, não tem Deus nele.

Então, por favor, parem com isso de julgar irritantemente o outro de acordo com o que vocês acreditam, de acordo com o que vocês ACHAM que é certo. Suas verdades são suas. Só suas.

 Então pensem. Pensem sempre. Faz bem. Não dói. Eu Juro.






domingo, 24 de novembro de 2013

Algumas coisas

eu andei observando algumas coisas
escrevendo algumas coisas
fingindo algumas coisas
aceitando algumas coisas

trejeitos
textos
sorrisos
fracassos

eu venho desconstruindo algumas coisas
destruindo algumas coisas
quebrando algumas coisas
matando algumas coisas

ideias
amizades
copos
insetos

eu tenho falado algumas coisas
sofrido algumas coisas
esmurrado algumas coisas
almejado algumas coisas

merdas
angústias
paredes
paixões



sábado, 9 de novembro de 2013

Fracasso

O domingo começou normal pra mim. 9 horas e já estremeci paredes com Winehouse cantando com força, fiz amor com a coca cola, dei atenção à solidão. Vamos lá, então. Vamos ligar o computador. Você tem um blog, lembra? Você escreve, lembra? Deixa esses seus nadas de lado e vai pensar. Vai criar. Vai escrever. Ideias inacabadas e não muito boas pairando por essa coisa confusa que carrego em cima do pescoço, a página em branco me chamando, a vontade de saber com o que preenchê-la dominando. Mas eu não sei. O que tenho agora não passa de gestos nervosos e suspiros cansados. Passam-se 10, 30, 60 minutos. A página já desesperançosa. E eu também. Desisto. Não vai rolar, não tem nada aqui dentro. Eu não sei mesmo sobre o que escrever. E quando não sei, me deito, rolo, abro a geladeira, bato portas, abraço o tédio, faço nadas. Nadas que me ferem e me consomem. Nadas que me hostilizam. Nadas que me fazem sentir nada. Quando não sei o que escrever, escrevo. E o resultado é esse aqui.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Quando a dor de cabeça não passa

Acordo sonolento e perambulante e já a avisto. Calma, não é nada demais, vai logo pra não se atrasar. Vai passar, vai passar. Esqueço ela atrás das risadas e das bobagens. Atrás da música, do livro, das palavras. E então ela grita. Não dou ouvidos. Grita mais alto, se contorce, esperneia, me sacode: ei, eu tô aqui. Eu tô aqui e não vou sair. As veias das têmporas dançantes e latejantes tun tun tun tun. No ritmo da dor tun tun tun. Não vou me medicar por qualquer dor de cabeça de cidade grande. Vou dormir que passa. Fechar as cortinas, apagar a luz. Resistir. Sono... sono... sono... relaxamento... relaxamento... tun tun tun tun tun tun. Eu vou enlouquecer. Me olho do alto da dor: olhos inchados, testa franzida, olhos lacrimejantes.
Desisto, ela vence. Toma então sua refeição desgostosamente amarga.
Uma hora passa. Mas e até lá?

Até lá é eu, o breu e TUN TUN TUN TUN.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Das negligências de um leitor

Volto àquela leitura inacabada, passo a mão pela capa áspera e me deito, me conforto, me ajeito. Bruços, barriga pra cima, de lado, me sento, me deito de novo. Olhos cansados num movimento repetitivo aquecendo palavras tímidas, recém-acordadas. Enorme a fila de versos sonolentos com sede de compreensão, a fluidez, a impaciência das últimas páginas, minha mente modeladora. Me deparo com o poético, com o conscistente, com o útil. E também com o frívolo. Vou engolindo, vou digerindo. Talvez excrete algum dia. Talvez não.

Coisa tão simples essa, tão fácil. E tão grandiosa, reveladora. Grande prazer esse da mobilidade inerte, grande abrir de boca na madrugada. Páginas sôfregas, insinuantes, nuas. Delas me despeço aos poucos, com bocejos e incompreenções. Caindo sobre meu peito, assistem ao lento encontro de pálpebras. Temendo um adeus, desejam um até logo.

E desse reencontro nunca sei. Talvez amanhã. Talvez mês que vem.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Autoconhecimento

   Não é fácil alcançar um bom grau de autoconhecimento quando as variações do roteiro de cada dia não acontecem. Vamos seguindo esse itinerário que a vida joga em nossos colos sem nem nos perguntarmos se estamos satisfeitos, sem averiguarmos se ele precisa de alguns complementos aqui ou de uns cortes ali. É esse comodismo o remetente do tédio que bate em nossas portas às 4 da tarde. As coisas vão saindo conforme o planejado: tudo certo. Quando não vão: fim do mundo. 
 
O autoconhecimento é mais íntimo àqueles que quebram protocolos, viajam sozinhos, trocam o barzinho da Sexta à noite por um banho de mar na madrugada. O autoconhecimento é amigo dos que largam-se no mundo com a cara e a coragem. Dos que não planejam tanto. 
 
Não estou dizendo pra ninguém ser totalmente despudorado e fazer da própria vida uma enorme passarela de asneiras em prol de autoconhecimento. Porque aí passaria a ser autodestruição. Mas arrisco: isso, em certa quantidade, contribui pra vivacidade.
 
E sim, autoconhecimento é (ou deveria ser) aquilo que resulta de longas, frequentes e boas sessões de terapia. Mas aí não tem vento no rosto. E nem céu estrelado.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Interativos demais. E de menos.


Ai, a internet... Que coisa maravilhosa, não? Diversão, informação, liberdade de expressão. Interação. Fica até difícil encontrar algo ruim relacionado ao mundo virtual com esse pacote de privilégios degustado por nós todos os dias. Mas, como toda coisa boa que se preze, ela tem sim seu lado negativo. Não é como o chocolate, a coca cola ou coisas do tipo. Essa fixação pela virtualidade pode causar distúrbios sociais, danificar relações e afetar pessoas psicologicamente.

Uma família na qual o filho adolescente só sai do quarto (onde está seu computador) pra buscar comida e ir ao banheiro. Um grupo de jovens amigos que se senta na mesa de um bar a falar sobre seus últimos posts, sobre quem curtiu suas fotos ou sobre quem lhes enviou uma solicitação de amizade - todos com os celulares na mão, claro. 

Será que essas pessoas lembram o que aconteceu, o que leram, quem curtiu o que, quem compartilhou o que uns dois dias depois? Talvez não lembrem nem 5 minutos depois.

Esse segundo mundo nos agarra, nos prende, nos sufoca. Ele é sim maravilhoso. Mas quando acontece de forma saudável. Quando não impede que um filho jante na mesa com os pais e conte como foi seu dia. Quando permite que amigos se tornem ainda mais amigos e se conheçam ainda mais durante uma social "olhos nos olhos" e não "olhos nas telas". Sou extremo admirador dessa proximidade que a internet possibilita aos distantes. Contanto que não afaste os próximos.

domingo, 18 de agosto de 2013

O segredo

Você passa dias e dias em sua casa. Em seu quarto. Em sua cama. Você lê bons livros e faz anotações inteligentes. Você ouve boa música, aprende sobre um novo assunto, faz pesquisas úteis, assiste televisão e usa algum aparelho para a comunicação com seus amigos intocáveis. Você senta e escreve coisas não muito boas. Se diz escritor e não se acha bom no que faz. Tem algum segredo? Escreve e apaga. E grita. E escreve de novo.

Você desiste. Se irrita e sai do quarto. Sai de casa. Vai para o mundo.
E então você vê. Você presencia. Sente. Toca. Vive.
Você volta. Escreve. E sorri.

Vê? O segredo tá aí. 


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Em nossas línguas

Em nossas línguas um grande não dizer. E um dizer sem querer. Em nossas línguas todo o desagrado reprimido e o agrado não admitido. Em nossas línguas coisas mortas que não caem no esquecimento de alguns. Em nossas línguas as feridas daqueles que nos ouviram e chatearam-se. E os sorrisos dos que alegraram-se. Em nossas línguas borboletas. Leves, admiráveis. Lindas. Em nossas línguas enormes espadas. Pesadas, intimidadoras. Cortantes. Em nossas línguas o que sabemos. E o que não sabemos também. Em nossas línguas um eterno medo. E uma eterna coragem. Em nossas línguas o sabor da vida.

sábado, 3 de agosto de 2013

Inimigos do sexo

Quero falar aqui sobre algo que me incomoda profundamente há um bom tempo. Quero falar sobre essa repreensão do instinto sexual, que já foi muito mais severa e acontece até os dias de hoje.

 Muitos desses repreendedores (mães, pais, avós, geralmente) nem sabem qual a origem das ideias conservadoras que seguem. Seguem apenas porque acham que é o correto, porque aprenderam dessa forma. E repreendem seus filhos/netos adolescentes quando estes são pegos assistindo a filmes que contém cenas de sexo, quando estão conversando com amigos sobre o assunto, etc. A verdade é que essa repreensão exagerada e chata a qual muitos são submetidos tem origem na noção de pecado original ensinada pelos fundamentalistas religiosos. Não é de forma alguma errado sentir prazer no sexo, falar sobre o assunto abertamente, seja com os amigos, seja dentro de casa. Como repreender algo instintivo e completamente natural do ser humano? Esse conservadorismo tosco é o responsável por todos os "piranha!" que uma mulher tem que aguentar.  Desse conservadorismo tosco surge a vergonha dos adolescentes de se abrirem com os pais, pedir conselhos e opiniões. Desse conservadorismo tosco surge uma gravidez totalmente surpreendedora causada pela falta de diálogo, pela falta de informação. E para os que acham exagero: essa semana soube do caso de uma adolescente que estava em dúvida se a pílula anticoncepcional deveria ser inserida na vagina ou se ela deveria tomar uma e o parceiro outra. Não duvido que ela tenha sido chamada de "burra" ou de coisas piores. Acontece que a culpa não é dela. Alguém tem dúvida de que faltou informação? Alguém tem dúvida de que faltou conversa entre ela e os pais? Alguém tem dúvida do motivo pelo qual essas conversas não aconteceram? Não aconteceram porque, para muitos, e creio que para a família dela, é vergonhoso falar dessas coisas. Essas coisas... Sabe essas coisas que todos nós fazemos ou vamos fazer um dia? Sabe essas coisas que deveriam ser tratadas com toda a naturalidade do mundo? Então, essas coisas são vergonhosas. É vergonhoso falar do próprio corpo. É vergonhoso demonstrar desejo. É vergonhoso a aparição de seios na TV. É vergonhoso praticar o sexo casual. É vergonhoso se masturbar. É vergonhoso.

Um dia não será mais. Um dia.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Antes que o mundo acabe

Antes que o mundo acabe eu quero falar sobre esses medos que reverberam em nossas faces. Quero sair na rua e sorrir pra cada um que passar por mim. Antes que o mundo acabe eu quero pisar na lua e beijar o sol. Quero sair de casa a caminho de lugar nenhum. Ser, ter e fazer. Eu quero conhecer o lado mais obscuro do bondoso. Quero desatar, um a um, os nós dessas mentes fechadas e queimar as amarras. Antes que o mundo acabe eu quero chorar diante de um quadro e rir do triste. Quero falar de filmes que vi e sofrer a dor do desconhecido. Abraçar o inimigo. Antes que o mundo acabe eu quero ouvir o que o asfalto das ruas barulhentas tem a dizer. Quero beber o sólido e mergulhar no concreto, subir pra baixo, me fazer outro e me estranhar. E me abraçar. Antes que o mundo acabe eu quero entrar nu na igreja e pedir a benção ao padre. Quero discutir sobre sexo com freiras e sobre amor com putas. Antes que o mundo acabe eu quero perguntar se ele tem medo da morte. Quero que me conte o que viu, o que fui, o que fomos. E no final de tudo, só espero ter certeza de que pra ele fui importante.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O texto 3

   E agora, o que eu faço? Ela me perguntou. Eu não sabia o que dizer. Quem sabe o óbvio? Perguntei o que tinha acontecido.
   Acho que não sei mais escrever. O que eu vou ser agora? Eu não sou nada sem os textos, e também eu não sou nada sem você. Você tá assim tão longe... Eu tô aqui. E talvez eu não estivesse mesmo. Mas o que é que eu ia dizer?
   Apesar disso, era difícil acreditar que ela pudesse simplesmente desaprender a escrever. As palavras continuam ali, sabe? Só precisam ser reorganizadas diferente. E ela ainda sabia fazer isso. Pelo menos era nisso que eu acreditava.
   Então disse que ela ainda sabia escrever. Era só continuar tentando.
   Não vai dar certo, eu sei. E você sabe. Não vai. Eu não sei mais. Eu nunca servi pra nada.
   Ela realmente não acreditou, mas voltou a escrever. E continuou me amando como sempre amou. Me disse que eu seria a sua inspiração e escreveu um texto que não a satisfez. Escreveu três. Infeliz consigo, e feliz com minha companhia. Ela suspirou e foi dormir.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Também quero um pouco de inferno


   É bem difícil escolher entre ordem e caos. Eu sou o centro da desorganização mas gosto das minhas coisas do meu jeito. Gosto de quarto arrumado e até vibro quando estou sozinho em casa. Nos braços do silêncio. No entanto, não saberia viver longe disso aqui. Das ruas que falam e não falam pouco, dos carros que gritam e gritam alto, de ouvir línguas que nem sei dizer quais são ao caminhar pelo meu bairro, das músicas estrondantes vindas de prédios, casas, bares e boates pela manhã, tarde, noite ou madrugada, dos sinais que demoram pra fechar e atordoa todos que ali estão parados, olhando pra seus relógios. Mas que gente atrasada, que gente apressada. Mas quanto prédio, quanta luz. Uma fila tão grande em frente ao cinema, uns olhares tão fixos em vitrines. Esses mil encontros marcados e desmarcados por dia, esses restaurantes lotados, essas risadas exageradas, esses gritos, essa cobradora de ônibus mau humorada, esse pipoqueiro simpático, esse mercado lotado e essa calçada molhada. E meus pés cansados. Não quero ordem pura. Sabe aquele que "knock on heaven's door"? Então. Não sou eu. Eu também quero um pouco de inferno.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Conversa de botas batidas



  Escuridão e um céu sem lua. O penhasco e o abismo frente a seu corpo. Sua alma fria, covarde, corajosa. A abominável covardia dos muitos. A abominável coragem dos poucos. Continuava a andar no escuro a passos curtos. Calma. A borda estava próxima e ela sabia, mas não pensava nisso. E então o chão a abandonou. Seus fios ruivos esvoaçavam belamente enquanto ela se esforçava para manter os, ainda vivos, olhos abertos. Viu então a face negra, a temida criatura, o pé no saco da humanidade. Viu a morte. Ouviu o choro das mães deixadas e as lástimas dos filhos desamparados. Ouviu os últimos urros de velhos doentes e sentiu o cheiro da carne podre. Ouviu o orgasmo dos vermes diante da matéria e o seco barulho de rosas, jogadas por mãos umedecidas por lágrimas, tocando a madeira protetora. Pôs-se, então, a falar:
É você, Morte?
Eu juro que sou inocente, garota.
Não a culpo. Eu quis vir visitá-la. Até que sua casa não é tão distante da casa da Vida.
A Vida é maravilhosa, não é mesmo? Que cor de vestido usavas hoje?
Cinza. Bom, pra mim não estava maravilhosa. Você a conhece?
Claro, menina. Eu e a Vida só andamos juntas. Vamos a todos os lugares juntas. Ao supermercado, à casa da vó, à escola, à boate, à praia, à orgia, à mesa de cirurgia. Sempre lado a lado.
E como nunca te vi?
A Vida diz que eu costumo assustar, então só apareço quando ela permite. Aliás, ela sabe que estás aqui?
Sabe sim, ela assistiu minha saída e não tentou impedi-la. Mas e você, como vai sua vida, Morte? Tem filhos? Marido? Você faz o que da vida?
“Você faz o que das vidas?” seria mais apropriado. Mas ainda assim estaria errado. Vivo num grande vazio escuro brincando com ossos. Sou uma grande despensa de restos. Tu ficarás em mim. E teu pai também. E Tua mãe, teus cachorros, teu presidente, teu inimigo, os recém-nascidos, as freiras, as putas. Todos. Tua alma me escapa e leva teu coração. Mas jamais abrirei mão de um jantar com direito à olhos, fígado e suculentos intestinos. Não mesmo. Meus filhos são os vermes. O pai é a terra.
Você é amiga da Vida?
Não muito. Ela é egoísta, só me dá as partes mortas dela. E eu sou igualitária, veja, estou nua e suja como tu. Agora deixemos de tanta boca aberta e entremos.
Nossa, tá escuro aqui... E sua casa fede. Espera! Quem sou eu? Qual meu nome? Me sinto tão vazia...       
Tua alma ficou lá fora, menina. Se olhares pela janela talvez ainda a vejas. Converso com teu corpo. Tu já não existes.
Existo sim. Existo sim.
Existes não. Não passas de morta. Desalmada. Estás gelada. Não lembras. Não sentes. És oca e só. Deita-te e aguarda por meus filhos. Eu preciso atender a porta.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Detrás












Eu vejo corpos de gente boa
E matéria oca
Vejo em corpos a chama a se apagar
Mortos em corpos vivos
E vivos em corpos mórbidos

Eu sei da dor
Por detrás da máscara da serenidade
E da tristeza por detrás do compulsivo


Sei da ira
Por detrás do contido debate
E do preconceito por detrás do ativista

Sei do não por detrás do sim
E da volúpia do devotado

Sei da excitação
Por detrás da recusa da boa foda
E sei do amor
Por detrás de seus descrentes