sábado, 27 de junho de 2026

Resposta

Tua vulnerabilidade aparente caiu em meu colo
vestida de ataque, mostrando os dentes depois do baque
de não saber como controlar o que a ti é ingovernável.

Eu, do alto do espanto,
questionei o que fiz de tanto,
e uma epifania revelou o porquê.
O porquê do teu mal dizer,
o porquê do banal sofrer.

No entanto, 
em nenhum de teus motivos me encontro,
se faz vazio teu calado pranto,
se faz urgente teu reconhecer.







sexta-feira, 12 de junho de 2026

Rafael

Você voou para além do que devia, Rafa. 
Não tá mais aqui para fazer com que fiquemos nas pontas dos pés, 
esticando-nos ao máximo, ao tentar alcançar tuas aspirações,
teus balões, teus pulmões e flutuantes corações.

Queria te contar que há pouco ouvi tua voz.
Loucura ou vontade de abraçar, o importante é que sorri.
Pois não há nada de mal que possa ter acontecido entre nós
que supere esse sentimento robusto aqui.

E assim como quando ainda presente, espero te reencontrar 
em qualquer direção a qual o vento apontar. E lembrar
que tuas vestes e teus pelos, teus cheiros e desapegos, 
gagueira fofa e eloquência frenética, tudo somado, 
me faziam te amar. 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Esperança

Escancarar aqui essa condição
de olhar atento à alteridade
de tentar sempre a contramão
do desalento e da maldade. 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Amanda

Te encontro nas palavras.
Aquelas que fiquei sem
quando tu partiu.

Será que ainda acho 
a mesma eloquência
de cabelos cacheados 
por aí?

Hoje olhei teus óculos,
teus livros,
teus amores.
E sorri.

Que bom que fui amigo de ti.
Que bom que te esbarrei,
que te abracei,
te gargalhei.

Que bom que, juntos,
sufocamos vocábulos 
ao nosso bel prazer.

E que prazer.

Me despeço sem me despedir
porque tu partes sem de fato partir.
Tu fica no que digo,
no que comunico,
no que gesticulo.

E te agradeço
por esse pedaço de vida sóbria 
que tu inebriou 
e que eu engulo.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Caramelos

Vi uma solidão voraz atravessar os olhos do senhor cercado por seus três cachorros caramelos. Mora aqui no prédio, bloco 1, ex-militar de meia idade, viúvo, pai só de pet. Aqui do terceiro andar, da janela do meu quarto que espia toda a praça do condomínio, vejo o grisalho tentar cumprimentos simpáticos aos outros vizinhos durante os punhados de voltas que dá na praça com seus companheiros coleirados ao longo do dia. Ontem foi meu dia. O avistei ao longe, enquanto eu voltava do mercado com umas sacolas me puxando o corpo para baixo. O sol castigava e ele aparentemente não se importava; enquanto eu desviava o olhar ao solo e franzia a testa em resposta ao mormaço, ele parecia interessado em minha presença, como quem, com simpatia, anuncia corporalmente que logo te dará bom dia. E assim o fez, ao passo em que levantou uma das mãos enrolada na coleira para dar um tchauzinho e esticou um dos cantos da boca num sorriso pálido e sincero. Quanto a mim, acenei apenas com a cabeça e sorri sem responder, logo apressando o passo para sair da vista solar e chegar ao portão - que tão logo se fechou atrás de mim, pensei naquele olhar, no porquê de cumprimentar, na magnitude e importância daqueles bichos. Pensei que na próxima eu vou parar, ajoelhar a acariciá-los, e perguntar o nome dos quatro. Vi uma solidão voraz atravessar os olhos do senhor dos cachorros caramelos.