terça-feira, 30 de julho de 2013

Antes que o mundo acabe

Antes que o mundo acabe eu quero falar sobre esses medos que reverberam em nossas faces. Quero sair na rua e sorrir pra cada um que passar por mim. Antes que o mundo acabe eu quero pisar na lua e beijar o sol. Quero sair de casa a caminho de lugar nenhum. Ser, ter e fazer. Eu quero conhecer o lado mais obscuro do bondoso. Quero desatar, um a um, os nós dessas mentes fechadas e queimar as amarras. Antes que o mundo acabe eu quero chorar diante de um quadro e rir do triste. Quero falar de filmes que vi e sofrer a dor do desconhecido. Abraçar o inimigo. Antes que o mundo acabe eu quero ouvir o que o asfalto das ruas barulhentas tem a dizer. Quero beber o sólido e mergulhar no concreto, subir pra baixo, me fazer outro e me estranhar. E me abraçar. Antes que o mundo acabe eu quero entrar nu na igreja e pedir a benção ao padre. Quero discutir sobre sexo com freiras e sobre amor com putas. Antes que o mundo acabe eu quero perguntar se ele tem medo da morte. Quero que me conte o que viu, o que fui, o que fomos. E no final de tudo, só espero ter certeza de que pra ele fui importante.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O texto 3

   E agora, o que eu faço? Ela me perguntou. Eu não sabia o que dizer. Quem sabe o óbvio? Perguntei o que tinha acontecido.
   Acho que não sei mais escrever. O que eu vou ser agora? Eu não sou nada sem os textos, e também eu não sou nada sem você. Você tá assim tão longe... Eu tô aqui. E talvez eu não estivesse mesmo. Mas o que é que eu ia dizer?
   Apesar disso, era difícil acreditar que ela pudesse simplesmente desaprender a escrever. As palavras continuam ali, sabe? Só precisam ser reorganizadas diferente. E ela ainda sabia fazer isso. Pelo menos era nisso que eu acreditava.
   Então disse que ela ainda sabia escrever. Era só continuar tentando.
   Não vai dar certo, eu sei. E você sabe. Não vai. Eu não sei mais. Eu nunca servi pra nada.
   Ela realmente não acreditou, mas voltou a escrever. E continuou me amando como sempre amou. Me disse que eu seria a sua inspiração e escreveu um texto que não a satisfez. Escreveu três. Infeliz consigo, e feliz com minha companhia. Ela suspirou e foi dormir.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Também quero um pouco de inferno


   É bem difícil escolher entre ordem e caos. Eu sou o centro da desorganização mas gosto das minhas coisas do meu jeito. Gosto de quarto arrumado e até vibro quando estou sozinho em casa. Nos braços do silêncio. No entanto, não saberia viver longe disso aqui. Das ruas que falam e não falam pouco, dos carros que gritam e gritam alto, de ouvir línguas que nem sei dizer quais são ao caminhar pelo meu bairro, das músicas estrondantes vindas de prédios, casas, bares e boates pela manhã, tarde, noite ou madrugada, dos sinais que demoram pra fechar e atordoa todos que ali estão parados, olhando pra seus relógios. Mas que gente atrasada, que gente apressada. Mas quanto prédio, quanta luz. Uma fila tão grande em frente ao cinema, uns olhares tão fixos em vitrines. Esses mil encontros marcados e desmarcados por dia, esses restaurantes lotados, essas risadas exageradas, esses gritos, essa cobradora de ônibus mau humorada, esse pipoqueiro simpático, esse mercado lotado e essa calçada molhada. E meus pés cansados. Não quero ordem pura. Sabe aquele que "knock on heaven's door"? Então. Não sou eu. Eu também quero um pouco de inferno.