sábado, 21 de novembro de 2015

Te vivo

Meus pés deslizam sobre os teus algumas vezes por semana.
O resto dela passam procurando por ti.
Meus lábios gastam dias inteiros gastando os teus,
E logo depois reverberam todo o teu gosto.
Em uns poucos e iluminados dias eu me atraco com toda a volúpia de tua carne, coleto rútilos do teu espírito.
Em todos os outros eu te tenho sem te ter. Presença e cheiro. Lembrança e arrepio.
Visto tuas roupas em vez das minhas, sinto teu perfume no lugar do meu. Me olho no espelho e vejo a boca tua, cada sorriso me lembra o teu.
Tem dias que espalho meu corpo sobre ti,
Tem dias que te busco nos vazios de minha cama.
Nuns dias te enxergo, e noutros te preciso.
Tem dias que te tenho. Tem dias que te vivo.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Meu acerto

Tu é como a lua às seis da tarde.
Bela,
em toda sua imperfeição.

Te levo comigo
no peito e nos olhos,
e no vago dos minutos tranquilos.

Te esqueço e depois resgato,
me perco e depois me acho
em passos leves e despreocupados
que surgiram depois de ti.

Tu é meu antídoto semanal,
é minha cura do mal
e meu refúgio de mim.

Tu é errado como minha gramática,
te ponho em prática
e soa melhor assim.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Castelo de cartas

Eu vivo na calma das horas, nas brechas dos dias, nas sombras lá fora. Meus fantasmas são esculpidos com exímio talento e guardados detrás da estante, embaixo da cama, dentro do sótão da consciência.

E apesar do meu olhar caído em manhãs indigestas, apesar dos gritos internos de horror em noites claras, o que os ofereço é apenas um pouco mais do que surdez e cegueira cínicas. Se debatem em intenso desespero enquanto os cubro com lençóis vagabundos e mal confeccionados, que comprei num mercado de ilusões baratas.

Os buracos se abrem no tecido fino e passo a costurar retalhos de pensamentos aleatórios num espectro cinza embaçado. Remendando remendos, enganando a qualquer um exceto a mim.

Espero algumas respostas me pegarem no colo e a elas me ato. Num nó cego, num nó farto. Mas a linha logo arrebenta, ela sempre arrebenta. O submundo Consciência deixa o preto e branco pra trás e passa a ser vivo. Vermelho sangue, amarelo sol. E eu vou a baixo, numa queda fragmentada, numa queda justa, pelo precipício que ajudei a construir.

domingo, 26 de abril de 2015

O gato

Me enrolo nas horas do dia e adormeço.
O sol lá fora já me conhece,
Se entristece,
Mas tem a virtude da constância, que desconheço.

Desperto atordoado e os fantasmas emergem.
Dou as costas, dou de ombros, bato o rabo,
Destruindo almofadas de enfado,
Percorrendo um corredor em duas horas.

Imóvel, reviro as merdas da vida.
E Tento escondê-las embaixo da areia
Que me sobrecarrega pela manhã e à tarde,
Na volta e na ida.

Eu tenho lambido esses dias chatos,
Esses trabalhos fartos,
Que por vezes me castram de prazer.

Mas a bola de pêlos ganha corpo e se revolta,
Busca o fantasma atrás da porta,
E um dia ainda vomito
Tudo o que me faz sofrer.

terça-feira, 3 de março de 2015

Minhas mais sinceras retóricas

Parece haver um consenso social de opiniões sobre alguns eventos que ocorrem em nosso país. Não raro, ligamos nossas TV's e nos deparamos com casos de violência, homicídio, corrupção, dentre outras barbáries. E a reação geral em relação a tudo isso é o choque, o horror, a repulsa. É levar as mãos à cabeça e deixar escapar um "Meu deus do céu...".

Pra exemplificar, o caso mais fresco e que despertou comoção nacional foi o de Chauan Jambre Cezário, jovem negro de 19 anos, que foi baleado e teve seu amigo, Alan De Souza Lima, morto por policiais militares numa favela de Honório Gurgel, subúrbio do Rio. Não bastasse o ocorrido, os policiais implantaram falsas provas ao local do crime e alegaram tratar-se de um confronto com bandidos armados. Entretanto, para o imenso e muito bem-vindo azar dos verdadeiros bandidos da história, os dois jovens gravavam um vídeo, por diversão, no momento da ação policial. Vídeo esse que, mesmo com o celular caído no chão, continuou sendo gravado e serviu como prova da inocência de Chauan.

Esse caso é só mais um no meio de tantos outros que não recebem a devida visibilidade, tamanha é a frequência desse tipo de coisa. Assim como é frequente casos de homossexuais sendo agredidos e assassinados e mulheres sendo espancadas até a morte por seus maridos. Nada disso é novidade, nada disso é raro. E ainda assim nos choca, nos aterroriza.

Mas a pergunta que não quer calar é: isso basta? Ficarmos chocados com essas notícias e soltarmos meia dúzia de frases de horror vai fazer com que esses eventos deixem de acontecer com absurda frequência? Casos como o de Chauan merecem muito mais de nós do que uma testa franzida diante de um telejornal. O que estamos fazendo a respeito disso?

Quem é que está disposto a se policiar todo dia, o tempo todo, para não cometer atitudes, ainda que mínimas, racistas, homofóbicas e sexistas? Quem é que está disposto a ser o chato da galera e repreender o autor de piadinhas desses gêneros? Pra alguns, pode parecer uma enorme de uma bobagem fazer esse tipo de coisa, adotar esse tipo de comportamento. Entretanto, mais uma vez questiono: onde é que têm origem os crimes de ódio, senão nas pequenas atitudes preconceituosas do dia a dia?

Negros ainda morrem por serem negros, homossexuais morrem por serem homossexuais e mulheres por serem mulheres. Mas como as coisas não existem porque existem, como elas não têm início e fim num vácuo, há, por detrás de todo crime de ódio, um sistema social que funciona à base daquelas pequenas atitudes e piadinhas, à base de produtos midiáticos nocivos à igualdade de direitos e, dentre outras coisas, um governo altamente negligente em relação a essas causas, o que acaba por nos afirmar que elas realmente não são tão importantes assim.

O subconsciente social formado a partir de tudo isso pode ser assustador. Como crianças tendem a reproduzir os exemplos de seus pais, nós aprendemos e reproduzimos os mecanismos do meio social. Elucidando ainda mais a questão, é como se o conjunto de relações, comportamentos e ideias de designações racistas, homofóbicas e sexistas, ao qual estamos expostos o tempo inteiro, fosse a carga, a energia, a catapulta do cometedor de crimes de ódio. Grande Mandela estava certíssimo: ninguém nasce odiando ninguém.

Por isso, do alto de toda minha indignação, de todo meu horror e lamento, pergunto mais uma vez, porque acho que devo, porque acho necessário, porque é urgente: o que estamos fazendo, que atitudes estamos tomando, diariamente, para tentar reverter essas situações?






sábado, 28 de fevereiro de 2015

Afoito amargor

Me ausento dos meios e dos bons sentimentos. Me encosto nos cantos, disseco paredes. Os combustíveis dessa vivacidade fugaz se esvaem pelo passar das horas, pelo ar, pelo prognóstico da semana seguinte.

Me escuto no silêncio da madrugada, no barulho da geladeira, no ronronar do gato. Tomo uma noite com sabor de amanhã e me retraio, murcho, caio. Durmo, e tento tirar o amargo da boca.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Remissões

Desculpa pelo atraso e pela pisada no pé.
Pelo sofrimento inevitável causado num por outro, perdão.
Pelos esbarrões atrapalhados, desculpa.
Pelas mentiras bem contadas, perdão.

Por não comprar o presente, desculpa. Por esquecer o aniversário, perdão.
Desculpa por entrar sem bater e perdão por jamais querer entrar.
Desculpa pela demora da resposta. Perdão por não querer falar.

Desculpa por muita, muita coisa. Perdão apenas pelo que importa.
Desculpa o pequeno desencontro, a casa bagunçada, o riso inconveniente. Perdoa a humilhação, as verdades falsas, quem de ódio tá doente.

Desculpa, enfim, tudo o que passa. Perdoa, então, o que perdura.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Mergulho

Não conheces cada dobra desse teu dedo,
Cada curva de tuas costas,
As omoplatas, a nuca.

Há chama acesa em ti,
Um vulcão ativado nas vísceras
E labaredas em olhos cálidos.
Dá lenha, dá ar,
Tenta apagar.

Teus nãos e teus sins,
A boca nervosa
Que amordaça a consciência
E uma ereção no transporte público.

O medo que nunca sentiu,
As flores que nunca cheirou,
As merdas que nunca comeu,
As drogas que nunca usou.

Acorda pra matar tua sede,
Te joga no lago misterioso
Dessa alma pouco explorada.
Afoga-te.
Vá ser turista de ti.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Volta


Parti e deixei sentimentos sublimes impregnados naquelas ruas, naquele quarto, naquela cidade. Trouxe comigo coisas novas, presentes para o espírito. Trouxe pedacinhos de amizades e cheiro de tinta. Trouxe a dor da lonjura e a expectativa da chegada. Sem suicídios pré-meditados, sem ciúmes exagerados no meio do caminho. Só uns prédios sujos com vergonha da gente, o sol quente, e um pouco de charme na fala.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Ser só. Estar só.

Sábado de manhã, em minha cama, lendo um livro, entra minha irmã em meu quarto e me sai com essa: "Igor, você é tão só!". Pegou alguma coisa e saiu, enquanto eu fechava o livro e franzia a testa. Eu? Sou só? Nunca havia parado para pensar sobre, mas já que a oportunidade bateu na porta, eu abri.

Bom, há uma diferença bastante significativa entre ser só e estar só, apesar, claro, da sutileza com que isso nos é apresentado no dia a dia.

Há, infelizmente, em grande parte dos lugares que frequentamos, pessoas que são sozinhas. Aquele garoto da festa que tenta sorrir e fazer o que os amigos estão fazendo, mas que, por alguma razão mais profunda do que um mal estar, não consegue interagir da mesma forma que o resto do grupo ou compartilhar das mesmas sensações. A moça que, na rua, anda correndo e olhando para baixo, rígida, assustada. Pessoas que se fecham pra tudo isso que tá aí, que tremem ao serem abordadas por um desconhecido simpático. Essas pessoas que podem estar no meio de uma multidão mas estarão sós, são sós.

Portanto, por serem assim, não é de se surpreender que prefiram estar sozinhas, livres desse medo de viver e abraçar o mundo. E é aí que se dá a confusão entre esses rótulos. Todos trancafiados em seus quartos, como saber quem está e quem é?

 Estar só é simplesmente querer ficar consigo, ouvindo os próprios gritos, dialogando com os próprios medos. É se limpar de toda concessão que fazemos pra conseguir viver bem com os outros e passar a viver melhor com nós mesmos. Estar só é, antes de qualquer coisa, um convite à sinceridade.

Não que os solitários de espírito não o sejam ou não o façam, porém a distinção se apresenta quando estamos todos fora de nossos claustros, lidando com o mundo, com o outro. Ser só é triste e requer análise e atenção. Estar só, e bem, é apenas paz de espírito. É auto-acolhimento. É amor com as horas vagas.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Piano

Ainda que relacionamentos não combinem com posse, tenho desejado um alguém pra chamar de meu. Em minhas mãos apenas casos por casos. Tenho sido o piano do salão de um bom anfitrião. O que diversas mãos tocam. Bem ou mal. Afinando ou danificando. Me deixaram algumas marcas ao explorarem meu lado mais grave, ao me tocarem com força, ao derramarem coisas em mim. Uns, mãos tão boas, toques tão sutis. Mas ninguém me levou pra casa, ninguém me fez feliz. Fiz barulho, me fechei durante alguns dias. E fiquei aqui. Parado. Cansado. Esperando o próximo vir.