segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Papelão

Uma gota vira oceano na boca 
de quem não bebeu o copo.
O corte vira longa metragem 
aos olhos de quem não viu.

E puta que pariu
- a que papelão
se submetem os fracos,
os bêbados,
os parvos. 

Alguns segundos bastam
para que sejam cancelados.
Mas quem é cancelamento
cerca dos próprios fardos?

Ser bom dói.
Esperar dos outros
arde um tanto mais.
Escalono pra além
Tropeço na vergonha
Chafurdo a cara na culpa.

Só posso ser quem eu sou.
E por isso não peço desculpa.

  


domingo, 21 de setembro de 2025

Lava

Seria mais fácil
se não me fosse tão 
atravessado
o peito.

Me embarga até o trejeito.
O último verso do poema,
os créditos do filme.

A violência,
o crime.
E também a decência
de quem desconheço.

Assim, no entanto, 
vou sendo lava na vida,
que apesar da ferida,
erupciona por dentro.


segunda-feira, 7 de julho de 2025

Muros

E por detrás da porta do ego
um quarto vazio nos espera.
Sem cama e sem janela
onde se possa repousar.

Sob a rudez de tamanha couraça, 
a carne trêmula, os nervos duros,
suplicando afago em meio à praça.

E que duro,
sobre o muro do orgulho, 
ter que olhar pra além do centro,
pra além da farsa.

Entender parte do cerne
de todo infortúnio,
de toda desgraça.




 

domingo, 11 de maio de 2025

Anjo

Você é um anjo, ouvi. Disseram. No entanto quebrei a asa e caio em demasia. Perdi meus poderes e por vezes nem a mim consigo proteger. Sigo comendo de umas flores mortas e aprendendo e desaprendendo uns caminhos mais nítidos. Meus cristais craquelam, minhas nuvens liquidificam e meu voo é turbulento. Do cerne do meu peito aflito emano claras luminescências a quase todos. Debaixo de minha frágil praticidade, às vezes nem saio da cama. Mas sou um anjo. Disseram.

sexta-feira, 21 de março de 2025

Cristal

Monto a vida pra poder quebrar de novo.
Refaço meu mosaico, teço meus fios de ouro. 
E nada me impede de arremessar o jarro ao chão.
De novo.

Jarro onde por vezes jasmim, 
retumba em estilhaços,
do chão cru toma abraço 
em cacos miúdos de mim. 

Assim:
cresço, floresço, resplandeço.
Murcho, desmorono, enlouqueço. 

Em armadilhas do eu,
em dias de grande estorvo,
mais uma vez me sublinho:

quebro a vida
pra poder montar de novo.





terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Fenda

Quando nada preenche é preciso parar e olhar o vazio.
Olhar o buraco, a falta, a lacuna, a fresta, a fenda. 
Até o momento em que a redução ou o cessar do rio 
de tudo aquilo que desaguara ali te surpreenda.

Se chocar com o odor pútrido da volatilidade ardente:
açúcar e sódio, luxúria e gula. Drogas. Muita gente.
E ao deixar o entorpecimento de si, corpo doente.
Com desalento: o quarto em chamas, tarefas ao vento. 
Com recidivas: nada fica. Nada para aqui dentro.