sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Túnel


Voltar pelo caminho de mim e me recolher as partes, os estilhaços, os membros espalhados de mim mesmo. Olhar para trás e ir até lá. Se aproximar com cuidado, mas sem medo, e entender a cara de todas as minhas mortes. Refazer uns pontos em mim e chorar o que não chorei, falar o que não falei e apreender o que me foi negado. De pés calmos, caminhar sem pressa pelos meus túneis e resgatar os prisioneiros que escondi, e que depois se esconderam de mim.

Colocar tudo em seu devido lugar. Ou tentar. Revisitar os porões que ficaram abertos, entender porque algumas luzes se apagaram e acendê-las quando for preciso. Tatear no escuro e achar umas chaves que estavam lá o tempo todo. Ir abrindo algumas portas então, ferrolhos de ferro, sistemas elétricos, e encantar uns cães raivosos. Ir liberando alguns sinais, algumas trancas e algemas, fazer as coisas acontecerem, fazer a água rolar e meu trânsito fluir.

Voltar em mim pra me fazer suceder, pra ressuscitar o bom que tenho ou tinha. Ressuscitar o bom de mim e agregar ao melhor que tenho agora, sair andando, gritar pra fora. Gritar pra fora minhas velhas novas partes, meus redescobrimentos de mim. E seguir em frente e esquecer também umas partes pelo caminho futuro, e perder outros membros e aprender um pouco mais, coletar outras coisas e passear por outros bosques, por outros pântanos, por outras trilhas de mim. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Tudo

Essa coisa viva que não existe por si só
Esse espelho difuso que te deixa escolher o que enxergar
O céu de qualquer dia esperando o teu olhar 
E palavras ordinárias recebendo a magia de qualquer um

A solidão do sol, a solidão da lua e a tua
Teu riso fotografado e teu choro escondido
Os livros lembrados e os esquecidos
Tua casa
Tua rua
E todas as outras casas e ruas

Os sons, os ares, os mares e os bichos
Teu café da manhã de todo dia
A luz amarela que beija tua janela
E até a louça que esqueces na pia

Mesmo que não queira
Mesmo que não saiba
Ou ainda que esqueça
Tudo isso também poesia.






quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Furacão


A ansiedade escorre pelos meus dedos e eu os lambo diariamente. Esfrego o rosto, bato os pés, mordo objetos e respiro fundo, e bebo muito, e como tudo. Porque eu tenho planos, contas e um corpo para cuidar, porque eu tenho jogado tudo isso no lixo, tenho me chutado pra baixo da cama e pra fora de casa.

Porque há coisas que nos pesam os ombros, nos pressionam contra a parede e apertam nosso peito. E a gente gira feito furacão pra longe, tentando esquecer, tentando não ver, não querendo engolir, não querendo sentir. E eu tenho girado em excesso e de braços abertos, tenho arrastado tudo comigo, tenho desolado pedaços importantes de mim.

Só fecho os olhos e vou pra rua, saio à noite e encho a cara. Me junto com amigos para não pensar e ter uma trégua de mim. Às vezes consigo. Vou à praia e mergulho como se tudo fosse mudar entre a imersão e a emersão. Nada. Mas pelo menos ali a realidade é enfeitada. Enfeites esses que sempre procuro, porque me melhoram e às vezes ajudam a me manter girando... O sol, a lua, o ar da noite e a calma da tarde. E também as paredes das ruas, os ângulos dos meus olhares e as músicas que canto.

Preciso parar. Preciso relaxar e dormir. A casa tá uma zona e eu tenho cochilado no meio dos meus escombros. Aqui os enfeites nem ficam tão bonitos assim e se tornaram remédios, em vez de um suco saboroso que acompanha um dia bom. Eu vou parar. Eu tenho que parar. Parar e depois caminhar, e olhar, e ver. Respirar e encarar tudo de frente, abrir o peito e deixar a cara livre para os tapas, para as lições. Preciso mastigar em vez de engolir de uma vez. Ler em vez de folear. Chorar em vez de correr. E nadar. Em vez de me debater.