terça-feira, 31 de julho de 2012

Cativeiro






    Ela abriu os olhos. Não viu nada. Foi movimentando-se lentamente na tentativa de se levantar do chão frio e úmido. Não sabia onde estava, começava a se apavorar. Seus olhos se acostumavam com a escuridão, Suas mãos ardiam como se tivessem sido retalhadas pela lâmina mais fina que possa existir. Sentia um líquido morno e viscoso escorrer vagarosamente por sua barriga dolorida. Fazia ideia do que poderia ser. Respirando com imensa dificuldade ela rastejava, traçando com sangue o caminho que percorria pelo chão. Ao achar uma parede ela apoiou suas duas mãos e com muita força nas pernas conseguiu ficar de pé. Foi dando passos curtos e laterais com o auxílio da parede, que não cheirava bem. Encostou seu cotovelo na fechadura gélida de uma porta de ferro e emitiu um som abafado, uma tentativa de grito, com o susto. Ouviu vozes vindas do outro lado da porta. Ficou amedrontada e sem saber o que fazer foi se afastando da porta, tropeçou e caiu de costas, levantou cambaleante enquanto a porta se abria rapidamente com o que parecia ter sido um chute. Não conseguia enxergar nada ao olhar em direção a porta, a claridade queimava seus olhos como fogo queima um simples papel. Conseguia ver, embaçadamente, uma silhueta parada na porta. Perguntou quem era com a voz trêmula e bastante forçada. A resposta foi dada com três disparos em sua direção, não conseguiu gritar, seu corpo foi jogado pra trás numa velocidade incrível. Dor, mais dor, resistência, olhos se fecham, último suspiro, escuridão.
   Ela abriu os olhos. Sorriu, deu um suspiro de alívio e levantou de sua cama.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Antítese

     Querida amiga, meu desejo é vê-la dilacerando sua alma. Desintegrando cada pedaço putrefeito e acinzentado que seu ser carrega. Tentando mesmo que cultivando o ódio, se desfazer desse mal que a acompanha. Querida amiga, quero que se jogue no beco mais necessitado de iluminação, quero que apague num lugar abandonado, e deixe serem exalados todos os seus pesares. Quero que beba, beba muito. Que preencha cada espaço vazio do seu estômago com álcool, até que o mundo comece a girar. Quero que encha suas veias com heroína pela última vez e que consiga dizer não a essa coisa que se arrasta acorrentada a seus pés. Quero que fume duas dezenas de cigarros, até que a fumaça te acalente como se fora sua melhor amiga, ou sua mãe. Quero que viva e morra nesse processo, e quero que deixe o mal tomar conta do seu ser. Mas me promete, me promete que seu corpo ainda vai viver. Te proíbo terminantemente de tocar em lâminas, ou em qualquer instrumento que possa servir para tirar sua vida fúnebre e infeliz. Te proíbo de pensar sequer em algo assim. Quero que sofra. Que sofra até que o sofrimento rasgue seus poros, e se livre desse corpo tão impotente que você usa como se não fosse seu. Quero que então, possa se levantar, sem saber ao certo onde esteve, ou quem fora, ou quem é essa pessoa que adormeceu ao teu lado, tão desnorteada quanto você. Quero que se desprenda de toda essa escuridão que te cercou, e que levante sabendo, sentindo, que agora tudo vai ficar bem. Quero que se obrigue a manter essa euforia, e que se agarre a ela como se fosse ela um orgasmo dos melhores. Quero que abandone esse canto desconhecido onde acordou. Quero que não volte a ele nunca mais. Quero que procure pela primeira vez na vida, algo de produtivo para te ocupar. Algo que te permita esgotar todo esse ódio e todo esse tédio que você mantém dentro do peito. Desejo que sua alma brilhe. Que ela ilumine cada parte desse corpo tão usado que então terá uma nova vida, novos princípios, um novo propósito. Então, compartilharemos o amor que será nosso novo objetivo em comum. E da próxima vez que resolver se afundar nessa tortura e seguir sua amiga morte, eu estarei do teu lado e “viverei” contigo.