sábado, 27 de junho de 2026
Resposta
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Rafael
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Esperança
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Amanda
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Caramelos
Vi uma solidão voraz atravessar os olhos do senhor cercado por seus três cachorros caramelos. Mora aqui no prédio, bloco 1, ex-militar de meia idade, viúvo, pai só de pet. Aqui do terceiro andar, da janela do meu quarto que espia toda a praça do condomínio, vejo o grisalho tentar cumprimentos simpáticos aos outros vizinhos durante os punhados de voltas que dá na praça com seus companheiros coleirados ao longo do dia. Ontem foi meu dia. O avistei ao longe, enquanto eu voltava do mercado com umas sacolas me puxando o corpo para baixo. O sol castigava e ele aparentemente não se importava; enquanto eu desviava o olhar ao solo e franzia a testa em resposta ao mormaço, ele parecia interessado em minha presença, como quem, com simpatia, anuncia corporalmente que logo te dará bom dia. E assim o fez, ao passo em que levantou uma das mãos enrolada na coleira para dar um tchauzinho e esticou um dos cantos da boca num sorriso pálido e sincero. Quanto a mim, acenei apenas com a cabeça e sorri sem responder, logo apressando o passo para sair da vista solar e chegar ao portão - que tão logo se fechou atrás de mim, pensei naquele olhar, no porquê de cumprimentar, na magnitude e importância daqueles bichos. Pensei que na próxima eu vou parar, ajoelhar a acariciá-los, e perguntar o nome dos quatro. Vi uma solidão voraz atravessar os olhos do senhor dos cachorros caramelos.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Papelão
domingo, 21 de setembro de 2025
Lava
segunda-feira, 7 de julho de 2025
Muros
domingo, 11 de maio de 2025
Anjo
Você é um anjo, ouvi. Disseram. No entanto quebrei a asa e caio em demasia. Perdi meus poderes e por vezes nem a mim consigo proteger. Sigo comendo de umas flores mortas e aprendendo e desaprendendo uns caminhos mais nítidos. Meus cristais craquelam, minhas nuvens liquidificam e meu voo é turbulento. Do cerne do meu peito aflito emano claras luminescências a quase todos. Debaixo de minha frágil praticidade, às vezes nem saio da cama. Mas sou um anjo. Disseram.
sexta-feira, 21 de março de 2025
Cristal
terça-feira, 21 de janeiro de 2025
Fenda
sábado, 5 de outubro de 2024
Ventania
segunda-feira, 8 de julho de 2024
Coletivos
Hoje me admirei com os automóveis potentes e exuberantes parados há cinquenta minutos num mesmo ponto do trânsito. Me admirei com tamanho avanço, com a grandeza da nossa era, com a modernidade gritando de ponta a ponta da cidade lotada de ensurdecedoras luzes vermelhas e amarelas. Em meio a qualquer ruído das seis da noite, quem grita mais alto são os carros, as sirenes, as buzinas, as bocas raivosas de volantes que estão sempre certos e que, não, não dão passagem a ninguém. Qualquer espaço perdido na avenida é perda de tempo e todo mundo tem pressa de chegar. Muitas vezes a coisa que mais demora em nossos dias é pela qual queremos passar o mais rápido possível, isso é certo. E hoje, num ônibus, mais ou menos quarenta pessoas representavam essa mesma quantidade de carros a menos nos túneis infinitos do cair da noite carioca. Me peguei pensando, ali, naquele claustro abarrotado, na engenhosa e brilhante máquina que é um automóvel. E na grandiosa burrice coletiva que nos acomete em dias úteis.
sábado, 16 de março de 2024
Noite e dia
E quase toda noite sou ardência.
Guardo pra mim minha carência.
E me repito em versos e hábitos nefastos.
Sigo bem todos meus rastros.
E tento cortar caminhos
por onde desconheço.
Numas manhãs, padeço.
E então gasto o dia assim:
Reacendendo vida em mim,
Tentando me tirar do avesso.
sexta-feira, 15 de março de 2024
Sonho
quinta-feira, 7 de março de 2024
Ciclo
quinta-feira, 25 de janeiro de 2024
Minutinhos
A chuva não passa e nem o ônibus. O médico não libera a alta e o frango assado não chega no ponto. O discurso tedioso não acaba, o chaveiro não chega, teus amigos não aparecem, um celular que não vibra. E olha pra tela a cada minuto, olha pela janela contorcendo o pescoço, bate o pé, levanta e senta, bate a porta da geladeira. A fila tá quilométrica, acho que aquele caixa tá mais vazio; guichê cinco, senhora, aguarde sua vez. Nove meses carregando o filho, o sinal do recreio já vai bater, o carro de teu pai já já dobra a esquina e teu crush vai finalmente te beijar. A pizza chegou? Esse comercial tem cinco minutos, a carne não descongela, a piscina não enche... A iminência da resposta já faz semanas que te afliges; se sim ou se não, se vai ou não vai, se certo ou errado, se glória ou terror. E um abismo que paira no ar de toda a nossa miudeza diante dele, o tal senhor, que nos sopra onde for: aguarde um minutinho por favor.