sexta-feira, 15 de dezembro de 2023
Dezembro
Chorei em ônibus diferentes num mesmo dia. Dia quinze desse mês abrasante. Poderia colocar a culpa na playlist do momento, mas nunca chorei com Beatles na vida. Sem abrir nem um pouco a mão de clichês, é um mês em que sinto magia no ar, sinto calor (obviamente) e a iluminação natural das coisas parece reverberar de forma diferente. A luz da primavera talvez? Cores fortes? Não saberia explicar em páginas e páginas de texto, mas presumo que seja algo construído na infância, junto à árvore de natal da minha avó e ao ar de sagrado que ela dava a tudo relacionado a isso. Chorei no ônibus porque estava triste de saudade, apesar de todos os elogios que, pessoalmente, gosto de tecer a Dezembro. E também porque acho que a transitoriedade de tudo se engrandece ao fim do ano; minha mãe não mais faz rabanadas e minha avó não consegue montar uma árvore de natal - nem mesmo se fosse com minha ajuda para enfeitar, como costumava ser. Esses são só detalhes, claro. E isso aqui não é de forma alguma a dramatização da minha condição presente; mas fruto de resgates de pormenores que me fizeram chorar disfarçadamente com a cabeça apoiada àquela janela inquieta do fundão esquerdo. Resgate de belezas que não me vestem mais, que giraram, que voaram, que desapareceram... Mas que revitalizam-se em cheiros e imagens, preenchem espaços na memória e vibram no peito. Vibram sem afinar minhas cordas antes. Hoje, por sinal, vibravam bem mais do que as paredes do ônibus.
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