domingo, 19 de novembro de 2023
Boas festas
segunda-feira, 25 de setembro de 2023
Escalada
quinta-feira, 27 de julho de 2023
Caça
quarta-feira, 28 de junho de 2023
Retorno
quarta-feira, 26 de abril de 2023
Dia certo
Às vezes, desejo nada além do dia claro e simples; do dia certo, que só me exige aquilo que devo. E que dessa exigência não brote nada além de serena complacência, que os ruídos dos ares da rotina não sejam extensos e que meu coração não palpite passado ou futuro. Difícil, eu sei, levantar sem pestanejar, curtir aquela viagem de ônibus, fazer a própria comida com gosto, estudar regozijando-se do conhecimento, nem ver a hora passar no trabalho, voltar pra casa satisfeito por dentro. Bater na cama e pensar: o dia foi bom. Bater na cama e pensar: eu fiz bem ao dia.
quinta-feira, 6 de abril de 2023
PC
Quando digo que sofro de ansiedade, não quero dizer que um nervosismo súbito faz companhia ao meu corpo vez ou outra. Quando digo que sofro de ansiedade, quero dizer que sofro de ansiedade. Sem o perdão da palavra; sofro. Sinto uma ardência congelante de dentro pra fora que parece corroer a camada mais profunda da pele, parece ser um frio que emana do coração e do estômago ao mesmo tempo. Dois icebergs pulsando a todo vapor e disparando lanças pontiagudas através de artérias exaustas, neurônios workaholic.
Respiração diafragmática então. Inspiro e expiro dez vezes, vinte, cinquenta. Me jogo sob a água quente do chuveiro e cerro os olhos no escuro, na tentativa de proteger o corpo do mais ínfimo estímulo externo. Deito e tento ouvir o coração, mudo de posição, entrego o corpo voluntariamente, e cada vez mais, ao colchão e, no entanto, coço a perna, mudo o travesseiro, penso naquilo, naquele, nele, nele, na fala, na intenção, em mim, no amanhã, no aniversário, na agenda, em 2026. Lanças e mais lanças impiedosamente ligeiras me atingem em cheio e, em vez de derrubar, me levantam, ando ardente pela casa, vou olhar o céu pela janela da sala, me sento a escrever, destroço a geladeira. Respiro fundo como se tivesse gosto o ar, como se fosse remédio, como se fosse acabar.
Uma ou três horas depois, cabeça na fronha novamente. O pensamento é o tolo de sempre: sou eu que mando no meu corpo, na minha mente. E repito o esforço ao não esforço mental eloquente. Nesses dias, geralmente, é o cérebro que vence - exaurido pela espera de um dono incapaz de colocá-lo pra dormir, sai por onde não vejo, sorrateiramente, e pressiona o Desligar. Saldo primeiro do dia: seu computador não foi encerrado corretamente.
quarta-feira, 5 de abril de 2023
Feijão com arroz
Repara que a vida é também um linear de coisas supostamente desinteressantes que preenchem o cerne das grandes realizações, das loucuras, das tragédias e das glórias? Antes da Sexta, a Quarta-feira; antes do acidente, a seta ligada pra esquerda, uma das mãos jogada despretensiosamente sobre o volante. Um rodízio de sushi com drinks num Sábado barulhento, e o feijão com arroz de um dia estressante. E a louça na pia, o cachorro latindo, o vendedor de vassouras gritando, portas batendo, pessoas falando. O nada em tudo e a todo instante. A sonoridade fragmentária que dá voz às ruas, as formas da lua, um sol que nunca entristece. Um fazer orgânico, os pulmões incansáveis da engenhosa engrenagem dos dias simples; barulho de cebola dourando na panela, o cheiro que vai até o banheiro, perde-se o isqueiro, queima-se o chuveiro. O ônibus demora, o motorista cancela a corrida, divide um pix com tua amiga, acorda no meio da noite e se senta de olhos entreabertos na privada. A casa calada, cortinas em valsa, desamarrota tua calça e sai a trabalhar. Esquece o carregador do celular. Ajeita as alças da mochila. Sem querer, cochila - até que a montanha-russa se depare com a descida.