Me perdi por umas linhas dessa escrita que não tem volta. Me peguei preso num parágrafo inicial quando todos pareciam já estar caminhando para um desenvolvimento conclusivo. Disponho as palavras ao longo do misterioso quadro negro que me foi dado de presente, com giz permanente - não usufruo do luxo de poder voltar atrás, de desfazer, de apagar. Mas ainda posso sublinhar, acrescentar umas vírgulas no verso acima, reler a estrofe anterior, contornar umas letras, fazer de um P, um B. Me esforço para desenhar cada letra sinuosamente, com a cautela de quem gostou demais do presente, mas que, não raro, rasga o pacote em vez de desatar o laço. Pois é, a letra de professor sede lugar a um garrancho de médico em algumas passagens. E os fins nem sempre justificam os meios nesse caso; a ilegibilidade dessas prescrições podem causar um mal ferrenho à saúde. Saúde essa que, verso após verso, tenho dado mais valor, porque me conheço melhor agora, escrevo-leio minha história, e é ela mesma que me ensina como continuar a contá-la. Já aprendi que páginas em branco, algum dia, deixam de surgir... E a não ser que quebremos o quadro ou joguemos o caderno fora, o que nos une é exatamente isso, a única opção que temos enquanto seres que respiram e querem respirar: escrever.
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