segunda-feira, 15 de março de 2021

Ouvinte

Choro porque preciso dizer a mim 

densas coisas.

E assim também canto, 

para bradar a mim coisas outras;

tal qual escrevo, 

é claro, 

para ouvir de mim

algumas coisas.


terça-feira, 2 de março de 2021

Silêncios


O sufocamento e o rebuliço do meu peito sobem à garganta e têm gosto de você. Gosto de dúvidas, de incertezas, de confusão. Gosto de um tanto daquilo que eu deveria ter gritado antes. Efervesceram e borbulharam aos meus olhos há pouco. E então escorreram no rosto que anteontem tu beijou.

Deveria eu sentir menos para ter paz então? Não. O que sinto são partes de mim e podem ser partes que não tomei ainda, que não engoli, que não aceitei, que varri para baixo do tapete. Varri para baixo do tapete ao tentar nada transparecer, ao sair completamente armado, ao agredir, ao tentar me distrair em outros braços. Talvez eu reconhecesse esses erros de alguma forma e aquelas desculpas foram sempre a você, quando, na verdade, deveriam ser pra mim.

Desculpas, então, a mim... Que me vi no centro de uma teia de sensações e não as reconheci como minhas. Teias frágeis, de vidro, à disposição de outro. É claro que eu não queria aquilo. É claro que eu estava com medo. E ao tentar me proteger, aprendi que me esconder de mim mesmo pode fazer tudo ficar mais dolorido. Afinal, pra onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Vidraçaria particular

 Sentado no banheiro, os azulejos me olhavam com olhos gigantes. Cada um, um problema que inventei. Uns fantasmas que criei e que por vezes alimentei com fartura, alimentei com meu corpo, com meu tempo, com meu desgaste. Me olhavam os olhos dos meus medos, os olhos dos meus anseios atordoados, olhos do corpo que eu deliberadamente debilito, da mente que me bota de castigo e de uns desejos que não permeiam a necessidade.

Me olhavam através de azulejos retangulares, cada um em seu devido espaço, me sussurrando coisas, me mostrando outras, me gritando e me extremecendo. Também tinha a culpa, claro, que me olhava de cima, espaçosa, o teto todo pra ela. No espelho, o reflexo de umas relações mal cuidadas, porque eu precisava tomar conta de mim primeiro.

Tem dias que o cômodo mais convidativo da casa é o banheiro realmente. Pulo dentro da parede, me forço a caber naquelas arestas e divido meu claustro com um monstro imaginário, mas que é vivo e tá sempre por ali. Às vezes conversam, às vezes não querem nem ouvir. Já matei alguns - afoguei na privada, dei descarga e me senti mais leve. Outros, têm toda minha atenção, embora exprimam ordens e ditem regras violentas.

Fácil pensar que o melhor que eu faço por eles - e por mim - é parar de lhes dar a dosagem diária de ração, é negar um gole sequer de água, negar uma palavra e até uma olhada. Talvez eu devesse mesmo enxergar essas paredes de outra forma, com azulejos feitos de vidro, um vidro frágil, com espessura de papel e cor de ar. Deveria conseguir ver claramente através deles. E então poder quebrar um por um, acertá-los em cheio com um picador de gelo e dividi-los em milhares de partes solitárias. Ouvir os urros agudos de algumas dores se esvaindo para longe. Varrer, então, umas partes podres de mim do chão. E tomar atento cuidado para não pisar nos meus cacos pelo meio do caminho.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Insônia

  Queria me deitar sereno, sem rituais que não funcionam. Queria não conhecer cada minuto das madrugadas longas e não ser tão familiarizado com cada centímetro dessa cama. Queria não perturbar o sono do travesseiro e do lençol toda vez que meu corpo surta. Queria não dissecar desesperadamente esse teto de angústias, essas paredes de compromissos relativamente distantes, esse guarda-roupas de sonhos longínquos e esse ar de afazeres do amanhã. Queria não me abrigar no chão numas noites meio estranhas... E tampouco ser bailarino de uma mente tão dançante.

  Não me levantar sete vezes e me satisfazer com a temperatura do ar condicionado. Não lembrar que amanhã existe e deixar o céu da noite em paz. Não ter um celular, não ter que planejar, nunca me preocupar e nem sequer pensar. Queria eu. Queria eu... Nada de braços dormentes e costas coçando. Nada de dor de cabeça ou coração palpitando. Levantar às 3h pra despejar coisas no papel em branco? Nem em sonho. E jamais atender as ligações dos meus demônios.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Tempo


Existir no tempo que toca tudo,
tempo que tudo toca.
Tempo que transforma a poesia,
tempo que a poesia transforma.

Falar sobre o agora que já não o é
e sobre o futuro que não se sabe se será.
Viver à espreita do nada e da incerteza 
porque o passado não foi o que planejara. 

Sumir das horas e voar aos ventos, 
desgarrar dos ponteiros, olhar pra dentro,
flutuar para além em algum momento 
e só voltar quando o relógio gritar.

Se atracar com os segundos então, 
e sangrar as nebulosas exigências do tempo.
Correr contra nem sei o quê,
ir rápido pra chegar não sei onde.

Vencer algo que nem existe
mas que é cru e vivo
e eu não sei onde se esconde. 


quarta-feira, 20 de março de 2019

Carnaval


O carnaval passou e desorganizou um pouco nossa desordem. Veio girando feito um furacão bêbado e encontrou a gente no meio da rua com uns copos nas mãos. Nos sugou aos ares, lançou aos ventos, às músicas, aos amigos e a uns venenos de adulto. Atiçou, eletrificou e nos tirou pra dançar sem muito direito a descansos. Os pés cansados e fortes, o corpo quase sempre suado e a bebida gelada. E as pessoas com a gente, as pessoas pra gente, e a gente com e para elas. A rua pra gente, o canto da gente e o dos outros também.

Dentro dos ventos fortes e coloridos dessa ventania, a gente se pintou de azul, rosa, prateado e verde florescente. A gente se enrolou em arco-íris e brilhamos sob sol, chuva e lua. A gente comeu e bebeu na rua, dançou e descansou na rua, beijou e se abraçou na rua, militou e resistiu na rua. Nossos corpos, vozes e presenças ecoaram espectros de luz e incendiaram e acenderam espaços, encantaram pessoas boas e se encantaram com elas.

E a nossa casa é que esperasse o furacão nos soltar. Não é todo dia que se está coberto de glitter comendo numa lanchonete com amigos. Não é todo dia que se sai às ruas sem saber ao certo pra onde, tendo a certeza de que vai achar uma coisa boa por aí. Não é todo dia que o boçal do nosso presidente é afrontado, de diversas maneiras e por diversas pessoas, das formas mais maravilhosas e criativas possíveis.

E pra não dizer que não falei das coisas ruins... Faz de conta que falei. Ou então dá uma olhada em qualquer noticiário de hoje, de ontem, de uns meses ou uns anos atrás. Tá tudo lá. Os chamados “males que o carnaval traz” não são trazidos pelo Carnaval propriamente dito, ou pelo menos não têm muito a ver com ele. Ele só chega e expõe algumas coisas que na verdade já acontecem há muito tempo. E a falta de educação de algumas pessoas cabe aqui como melhor exemplo.

Ninguém deve temer o Carnaval, como infelizmente tem acontecido. Ninguém deve temer sair na rua e encontrar pessoas cantando e dançando, e cantar e dançar também se quiser. Sair de casa e olhar para os outros com um olhar de cuidado já é resistência em 2019. Já é uma força contra aqueles que agem de forma contrária. Precisamos ser maiores e precisamos ser mais. E fazer lembrar que carnaval é alegria, história, cultura, música, amizade, energia e amor. Claro: A forma como cada um vai receber e passar isso é uma escolha absolutamente individual. Carnaval é essa ideia maravilhosa e quem põe em prática é você.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Túnel


Voltar pelo caminho de mim e me recolher as partes, os estilhaços, os membros espalhados de mim mesmo. Olhar para trás e ir até lá. Se aproximar com cuidado, mas sem medo, e entender a cara de todas as minhas mortes. Refazer uns pontos em mim e chorar o que não chorei, falar o que não falei e apreender o que me foi negado. De pés calmos, caminhar sem pressa pelos meus túneis e resgatar os prisioneiros que escondi, e que depois se esconderam de mim.

Colocar tudo em seu devido lugar. Ou tentar. Revisitar os porões que ficaram abertos, entender porque algumas luzes se apagaram e acendê-las quando for preciso. Tatear no escuro e achar umas chaves que estavam lá o tempo todo. Ir abrindo algumas portas então, ferrolhos de ferro, sistemas elétricos, e encantar uns cães raivosos. Ir liberando alguns sinais, algumas trancas e algemas, fazer as coisas acontecerem, fazer a água rolar e meu trânsito fluir.

Voltar em mim pra me fazer suceder, pra ressuscitar o bom que tenho ou tinha. Ressuscitar o bom de mim e agregar ao melhor que tenho agora, sair andando, gritar pra fora. Gritar pra fora minhas velhas novas partes, meus redescobrimentos de mim. E seguir em frente e esquecer também umas partes pelo caminho futuro, e perder outros membros e aprender um pouco mais, coletar outras coisas e passear por outros bosques, por outros pântanos, por outras trilhas de mim. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Tudo

Essa coisa viva que não existe por si só
Esse espelho difuso que te deixa escolher o que enxergar
O céu de qualquer dia esperando o teu olhar 
E palavras ordinárias recebendo a magia de qualquer um

A solidão do sol, a solidão da lua e a tua
Teu riso fotografado e teu choro escondido
Os livros lembrados e os esquecidos
Tua casa
Tua rua
E todas as outras casas e ruas

Os sons, os ares, os mares e os bichos
Teu café da manhã de todo dia
A luz amarela que beija tua janela
E até a louça que esqueces na pia

Mesmo que não queira
Mesmo que não saiba
Ou ainda que esqueça
Tudo isso também poesia.






quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Furacão


A ansiedade escorre pelos meus dedos e eu os lambo diariamente. Esfrego o rosto, bato os pés, mordo objetos e respiro fundo, e bebo muito, e como tudo. Porque eu tenho planos, contas e um corpo para cuidar, porque eu tenho jogado tudo isso no lixo, tenho me chutado pra baixo da cama e pra fora de casa.

Porque há coisas que nos pesam os ombros, nos pressionam contra a parede e apertam nosso peito. E a gente gira feito furacão pra longe, tentando esquecer, tentando não ver, não querendo engolir, não querendo sentir. E eu tenho girado em excesso e de braços abertos, tenho arrastado tudo comigo, tenho desolado pedaços importantes de mim.

Só fecho os olhos e vou pra rua, saio à noite e encho a cara. Me junto com amigos para não pensar e ter uma trégua de mim. Às vezes consigo. Vou à praia e mergulho como se tudo fosse mudar entre a imersão e a emersão. Nada. Mas pelo menos ali a realidade é enfeitada. Enfeites esses que sempre procuro, porque me melhoram e às vezes ajudam a me manter girando... O sol, a lua, o ar da noite e a calma da tarde. E também as paredes das ruas, os ângulos dos meus olhares e as músicas que canto.

Preciso parar. Preciso relaxar e dormir. A casa tá uma zona e eu tenho cochilado no meio dos meus escombros. Aqui os enfeites nem ficam tão bonitos assim e se tornaram remédios, em vez de um suco saboroso que acompanha um dia bom. Eu vou parar. Eu tenho que parar. Parar e depois caminhar, e olhar, e ver. Respirar e encarar tudo de frente, abrir o peito e deixar a cara livre para os tapas, para as lições. Preciso mastigar em vez de engolir de uma vez. Ler em vez de folear. Chorar em vez de correr. E nadar. Em vez de me debater.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Notívago

Dia desses, vi andando por aqui um gato de olhar confuso e nada efusivo. Um gato que se ajeita numas sombras diurnas e se esparrama na imensidão dessas noites pequenas. Que parece saber que a serenidade das tardes merece todo nosso apreço e que as manhãs também precisam ser vividas.

E tá por aqui ainda, o gato, aqui por dentro... Numa luta contra o tempo, o tempo dele, o tempo do qual ele acha que tem o mínimo de controle e entendimento. O tempo que às vezes o sufoca, e que às vezes o faz querer caminhar. Constante, claro, alguns arrastar de horas pelo dia, rolando sobre algumas coisas, dormindo em cima de outras muitas, tendo umas ideias frescas e outras vagabundas.

Em noites lindas e atípicas, por algum motivo, sob céu limpo ele se senta a conversar comigo e me sussurra as profundezas do peito. Diz já não querer se perder no tempo, que quer buscar equilíbrio entre instinto e racionalidade, quer o intermédio entre ar e vento; quer se encontrar de verdade. E também viver de luz e de caminhadas acesas pela manhã, farejar muitos ares, pra só então decidir qual deles vai ser seu combustível fiel e perene..

E até algumas decisões sangrentas serem tomadas, até esses nós sem olhos serem desatados e umas promessas cumpridas, o lado incansavelmente recluso de seu ser se fará assiduamente presente. Calado. Afastado. Bate o rabo. Se vira.

E tá por aqui ainda, o gato. Aqui por dentro...