segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Alguns desejos


Que as coisas mudem para todos. Para melhor, se possível. Apesar de achar ligeiramente ingênuo e um tanto quanto inútil desejar melhoras maravilhosas, eu sei que isso todo mundo quer. E eu quase nunca acho que mudanças são ruins. E também não acho que devem sempre ser espetaculares. Espero que conheçamos gente legal, façamos novos amigos, conheçamos um novo restaurante, frequentemos lugares novos, passemos por ruas desconhecidas. Desejo mudanças.

Desejo que as pessoas estejam ao menos dispostas a ouvir as outras, mesmo sem concordar com o que está sendo dito. Que deixem suas ideias de mármore um pouco de lado, se abram para novas visões e reflitam sobre elas. Quero que entendam que discordâncias ideológicas e divergência de opiniões não são o fim do mundo. Que ninguém deve ofender ninguém porque um ou outro não concordou que se diz laranja e não cor de abóbora.

Que as pessoas interajam mais, falem mais, chorem no ombro de colegas, caso necessário. Na maioria dos casos, a introspecção não é uma coisa boa.

Quero que nos preocupemos cada vez menos com o alheio, no que diz respeito a frivolidades. O corpo, a roupa, o sexo, a cor, o corte de cabelo, o tamanho dos lábios.

Desejo também que nossos medos se tornem fracos e quebráveis, porque só assim conseguiremos lutar pelo que acreditamos e pelo que desejamos.

Desejo mais sexo a todos,

Desejo menos medos

E mais desejos.




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Entulhos

Deitado, sem fazer nada, percebo: estou cheio demais. Não é o saco, nem é o estômago. Mas estou cheio demais. Contatos no limbo, cd's mudos, livros empoeirados, memórias que não me agradam mais, amizades em coma. Abro gavetas e me deparo com anotações de 2010, reviro uma bermuda e cai o ingresso do cinema de semana passada, olho o fundo do guarda-roupas e tenho flashes desgastantes. Numa casa, essas coisas seriam aquelas paredes descascadas e carentes de uma nova pintura, o quarto onde se guarda bugingangas, o espelho rachado, a sobra inútil do papel higiênico, a lâmpada queimada.

Preciso mesmo é me desfazer de tudo isso, fazer uma fogueira, perder esses quilos a mais. Desmembrar esse polvo de vinte tentáculos.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ateu também é gente

NOSSA, ele é ateu. COMO ASSIM ela não acredita em Deus? Ai, cruzes, nunca vai ser feliz desse jeito. Credo!

Esses são alguns dos comentários que já ouvi em relação a quem é ateu. É realmente assustador como grande parte das pessoas lidam com isso, como elas detestam quem não tem fé. Elas se assustam, se afastam, fazem cara feia, não entendem. Mas como assim não acredita em Deus? Todos têm que acreditar. É o certo. Não é?

Certo não. É o normal, o comum, o habitual. E quando as coisas vão contra isso, as pessoas fazem um alvoroço, relutam, prejulgam, xingam. E é daí que começam a surgir as ideias de que os descrentes serão infelizes, de que vai dar tudo errado na vida deles porque são seres amargos, ruins, sem luz, sem Deus no coração.

Pra essas pessoas, digo: vocês realmente não sabem o que falam. Vocês estão muito errados. Muito mesmo. Vocês estão errados por acharem que o outro está errado simplesmente por não acreditar no que vocês acreditam. Vocês estão errados e devem, urgentemente, começar a desconstruir essas falsas verdades desprezíveis que andam gritando aos quatro ventos.

Vou ser gentil e ajudar nessa desconstrução fazendo uma revelação bombástica pra vocês: eu tenho uma amiga que é ateia. MEU DEUS. ATEIA. Sim, ateia. Sem agradecimentos pelo pão de cada dia, sem preces antes de dormir, sem missa aos domingos. Sem fé, sem Deus. Ateia. E adivinhem só? Ela também ri, ela também se emociona, ela é sensível. Ela é uma pessoa maravilhosa e tem um bom coração. E acreditem, não tem Deus nele.

Então, por favor, parem com isso de julgar irritantemente o outro de acordo com o que vocês acreditam, de acordo com o que vocês ACHAM que é certo. Suas verdades são suas. Só suas.

 Então pensem. Pensem sempre. Faz bem. Não dói. Eu Juro.






domingo, 24 de novembro de 2013

Algumas coisas

eu andei observando algumas coisas
escrevendo algumas coisas
fingindo algumas coisas
aceitando algumas coisas

trejeitos
textos
sorrisos
fracassos

eu venho desconstruindo algumas coisas
destruindo algumas coisas
quebrando algumas coisas
matando algumas coisas

ideias
amizades
copos
insetos

eu tenho falado algumas coisas
sofrido algumas coisas
esmurrado algumas coisas
almejado algumas coisas

merdas
angústias
paredes
paixões



sábado, 9 de novembro de 2013

Fracasso

O domingo começou normal pra mim. 9 horas e já estremeci paredes com Winehouse cantando com força, fiz amor com a coca cola, dei atenção à solidão. Vamos lá, então. Vamos ligar o computador. Você tem um blog, lembra? Você escreve, lembra? Deixa esses seus nadas de lado e vai pensar. Vai criar. Vai escrever. Ideias inacabadas e não muito boas pairando por essa coisa confusa que carrego em cima do pescoço, a página em branco me chamando, a vontade de saber com o que preenchê-la dominando. Mas eu não sei. O que tenho agora não passa de gestos nervosos e suspiros cansados. Passam-se 10, 30, 60 minutos. A página já desesperançosa. E eu também. Desisto. Não vai rolar, não tem nada aqui dentro. Eu não sei mesmo sobre o que escrever. E quando não sei, me deito, rolo, abro a geladeira, bato portas, abraço o tédio, faço nadas. Nadas que me ferem e me consomem. Nadas que me hostilizam. Nadas que me fazem sentir nada. Quando não sei o que escrever, escrevo. E o resultado é esse aqui.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Quando a dor de cabeça não passa

Acordo sonolento e perambulante e já a avisto. Calma, não é nada demais, vai logo pra não se atrasar. Vai passar, vai passar. Esqueço ela atrás das risadas e das bobagens. Atrás da música, do livro, das palavras. E então ela grita. Não dou ouvidos. Grita mais alto, se contorce, esperneia, me sacode: ei, eu tô aqui. Eu tô aqui e não vou sair. As veias das têmporas dançantes e latejantes tun tun tun tun. No ritmo da dor tun tun tun. Não vou me medicar por qualquer dor de cabeça de cidade grande. Vou dormir que passa. Fechar as cortinas, apagar a luz. Resistir. Sono... sono... sono... relaxamento... relaxamento... tun tun tun tun tun tun. Eu vou enlouquecer. Me olho do alto da dor: olhos inchados, testa franzida, olhos lacrimejantes.
Desisto, ela vence. Toma então sua refeição desgostosamente amarga.
Uma hora passa. Mas e até lá?

Até lá é eu, o breu e TUN TUN TUN TUN.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Das negligências de um leitor

Volto àquela leitura inacabada, passo a mão pela capa áspera e me deito, me conforto, me ajeito. Bruços, barriga pra cima, de lado, me sento, me deito de novo. Olhos cansados num movimento repetitivo aquecendo palavras tímidas, recém-acordadas. Enorme a fila de versos sonolentos com sede de compreensão, a fluidez, a impaciência das últimas páginas, minha mente modeladora. Me deparo com o poético, com o conscistente, com o útil. E também com o frívolo. Vou engolindo, vou digerindo. Talvez excrete algum dia. Talvez não.

Coisa tão simples essa, tão fácil. E tão grandiosa, reveladora. Grande prazer esse da mobilidade inerte, grande abrir de boca na madrugada. Páginas sôfregas, insinuantes, nuas. Delas me despeço aos poucos, com bocejos e incompreenções. Caindo sobre meu peito, assistem ao lento encontro de pálpebras. Temendo um adeus, desejam um até logo.

E desse reencontro nunca sei. Talvez amanhã. Talvez mês que vem.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Autoconhecimento

   Não é fácil alcançar um bom grau de autoconhecimento quando as variações do roteiro de cada dia não acontecem. Vamos seguindo esse itinerário que a vida joga em nossos colos sem nem nos perguntarmos se estamos satisfeitos, sem averiguarmos se ele precisa de alguns complementos aqui ou de uns cortes ali. É esse comodismo o remetente do tédio que bate em nossas portas às 4 da tarde. As coisas vão saindo conforme o planejado: tudo certo. Quando não vão: fim do mundo. 
 
O autoconhecimento é mais íntimo àqueles que quebram protocolos, viajam sozinhos, trocam o barzinho da Sexta à noite por um banho de mar na madrugada. O autoconhecimento é amigo dos que largam-se no mundo com a cara e a coragem. Dos que não planejam tanto. 
 
Não estou dizendo pra ninguém ser totalmente despudorado e fazer da própria vida uma enorme passarela de asneiras em prol de autoconhecimento. Porque aí passaria a ser autodestruição. Mas arrisco: isso, em certa quantidade, contribui pra vivacidade.
 
E sim, autoconhecimento é (ou deveria ser) aquilo que resulta de longas, frequentes e boas sessões de terapia. Mas aí não tem vento no rosto. E nem céu estrelado.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Interativos demais. E de menos.


Ai, a internet... Que coisa maravilhosa, não? Diversão, informação, liberdade de expressão. Interação. Fica até difícil encontrar algo ruim relacionado ao mundo virtual com esse pacote de privilégios degustado por nós todos os dias. Mas, como toda coisa boa que se preze, ela tem sim seu lado negativo. Não é como o chocolate, a coca cola ou coisas do tipo. Essa fixação pela virtualidade pode causar distúrbios sociais, danificar relações e afetar pessoas psicologicamente.

Uma família na qual o filho adolescente só sai do quarto (onde está seu computador) pra buscar comida e ir ao banheiro. Um grupo de jovens amigos que se senta na mesa de um bar a falar sobre seus últimos posts, sobre quem curtiu suas fotos ou sobre quem lhes enviou uma solicitação de amizade - todos com os celulares na mão, claro. 

Será que essas pessoas lembram o que aconteceu, o que leram, quem curtiu o que, quem compartilhou o que uns dois dias depois? Talvez não lembrem nem 5 minutos depois.

Esse segundo mundo nos agarra, nos prende, nos sufoca. Ele é sim maravilhoso. Mas quando acontece de forma saudável. Quando não impede que um filho jante na mesa com os pais e conte como foi seu dia. Quando permite que amigos se tornem ainda mais amigos e se conheçam ainda mais durante uma social "olhos nos olhos" e não "olhos nas telas". Sou extremo admirador dessa proximidade que a internet possibilita aos distantes. Contanto que não afaste os próximos.

domingo, 18 de agosto de 2013

O segredo

Você passa dias e dias em sua casa. Em seu quarto. Em sua cama. Você lê bons livros e faz anotações inteligentes. Você ouve boa música, aprende sobre um novo assunto, faz pesquisas úteis, assiste televisão e usa algum aparelho para a comunicação com seus amigos intocáveis. Você senta e escreve coisas não muito boas. Se diz escritor e não se acha bom no que faz. Tem algum segredo? Escreve e apaga. E grita. E escreve de novo.

Você desiste. Se irrita e sai do quarto. Sai de casa. Vai para o mundo.
E então você vê. Você presencia. Sente. Toca. Vive.
Você volta. Escreve. E sorri.

Vê? O segredo tá aí.