quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Minutinhos

 A chuva não passa e nem o ônibus. O médico não libera a alta e o frango assado não chega no ponto. O discurso tedioso não acaba, o chaveiro não chega, teus amigos não aparecem, um celular que não vibra. E olha pra tela a cada minuto, olha pela janela contorcendo o pescoço, bate o pé, levanta e senta, bate a porta da geladeira. A fila tá quilométrica, acho que aquele caixa tá mais vazio; guichê cinco, senhora, aguarde sua vez. Nove meses carregando o filho, o sinal do recreio já vai bater, o carro de teu pai já já dobra a esquina e teu crush vai finalmente te beijar. A pizza chegou? Esse comercial tem cinco minutos, a carne não descongela, a piscina não enche... A iminência da resposta já faz semanas que te afliges; se sim ou se não, se vai ou não vai, se certo ou errado, se glória ou terror. E um abismo que paira no ar de toda a nossa miudeza diante dele, o tal senhor, que nos sopra onde for: aguarde um minutinho por favor.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Tiro

Como é que pode caber tanto amor num punhado de músculo? Como que pode transbordar tanto assim? Meu peito pula pra fora às vezes. Se joga no meio da pista. E eu escorro pra todos os lados. Vibrando. Amando. Me esvaindo pra todos os cantos. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Dezembro

Chorei em ônibus diferentes num mesmo dia. Dia quinze desse mês abrasante. Poderia colocar a culpa na playlist do momento, mas nunca chorei com Beatles na vida. Sem abrir nem um pouco a mão de clichês, é um mês em que sinto magia no ar, sinto calor (obviamente) e a iluminação natural das coisas parece reverberar de forma diferente. A luz da primavera talvez? Cores fortes? Não saberia explicar em páginas e páginas de texto, mas presumo que seja algo construído na infância, junto à árvore de natal da minha avó e ao ar de sagrado que ela dava a tudo relacionado a isso. Chorei no ônibus porque estava triste de saudade, apesar de todos os elogios que, pessoalmente, gosto de tecer a Dezembro. E também porque acho que a transitoriedade de tudo se engrandece ao fim do ano; minha mãe não mais faz rabanadas e minha avó não consegue montar uma árvore de natal - nem mesmo se fosse com minha ajuda para enfeitar, como costumava ser. Esses são só detalhes, claro. E isso aqui não é de forma alguma a dramatização da minha condição presente; mas fruto de resgates de pormenores que me fizeram chorar disfarçadamente com a cabeça apoiada àquela janela inquieta do fundão esquerdo. Resgate de belezas que não me vestem mais, que giraram, que voaram, que desapareceram... Mas que revitalizam-se em cheiros e imagens, preenchem espaços na memória e vibram no peito. Vibram sem afinar minhas cordas antes. Hoje, por sinal, vibravam bem mais do que as paredes do ônibus.

domingo, 19 de novembro de 2023

Boas festas

Vim repetir palavras sobre a repetição de tudo. O compasso do coração que reclama dos mesmos erros e das mesmas questões. A cabeça que encontra o travesseiro e rola de um lado para o outro rebobinando e reassistindo filmes - dizem que nunca é a mesma experiência, então espero que a reelaboração esteja de fato acontecendo. O verão atropelou a primavera e voltou junto às reclamações. Junto às baratas, aos mosquitos e às mortes por negligência. Águas batendo nas canelas dos desesperados, fornalhas açoitando os sem energia elétrica. O papai noel de cada loja deu as caras de novo, a árvore de natal colocou uma roupa nova e a Black Friday tá mais atrativa do que nunca mais uma vez, tá imperdível novamente, tá de graça, tá pela hora da vida.

E se as comidas do vinte e cinco fossem diferentes esse ano? E se as praias permanecessem limpas no trinta e um? A cor será branca invariavelmente, tal qual não varia o perrengue de quem toma o metrô e peita a odisseia de iniciar o ano na orla mais famosa do mundo. Que glamour. Minha hipocrisia de pensar o diferente e fazer o mesmo segue sendo a mesma também. Vou seguir me entupindo de rabanada e salpicão. Vou beber vinho mesmo sentindo calor. Vou acompanhar certa melancolia que certas datas trazem em algum momento e beber mais do que deveria. Olha o panetone, a polêmica da uva-passa, o parente desagradável, o décimo terceiro, o shopping lotado, a casa acessa, a rua quente, as roupas recém compradas. Olha a desgraça. Olha a esperança. Olha a gente se abraçando de novo. Feliz Natal. Feliz Ano Novo.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Escalada

Me lanço escada a cima
Tateando gozos
Mendigando êxtases 
Me lambuzo todo

De degrau em degrau
Uma cerveja
Um pau

Meia hora embaixo da coberta
Seis dentro de uma festa
A acompanhar o açúcar
Que sempre me interessa

Maratono lances inteiros 
Subo aos desesperos
E despenco no vazio
Do engodo 
Das sedes
Do peito






quinta-feira, 27 de julho de 2023

Caça

Me faço sempre acordado
Quando a noite não basta.

Suplico calado
Por explosão qualquer 
Que me adentre ao peito
Que derrube esta casa.

Penso absurdos em prol do vento
Do giro, do voo
Do furacão da mudança.

Que esta noite jamais amanheça 
Ou que amanheça ainda criança.

Que venha então a madrugada sublime
Ou por capricho, que me devore nefasta.

Me farei assim
Sempre acordado
Enquanto a noite não basta.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Retorno

Alçar-me em alturas
E vez ou outra 
Certificar 
Que ainda dá pé.

Precipitar-me em funduras
Sem cegar a vista
À clareza
De cima e afora.

Não me deixar ir embora
E recolher com mãos afáveis
Estilhaços de mim 
Que explodiram outrora.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Dia certo

 Às vezes, desejo nada além do dia claro e simples; do dia certo, que só me exige aquilo que devo. E que dessa exigência não brote nada além de serena complacência, que os ruídos dos ares da rotina não sejam extensos e que meu coração não palpite passado ou futuro. Difícil, eu sei, levantar sem pestanejar, curtir aquela viagem de ônibus, fazer a própria comida com gosto, estudar regozijando-se do conhecimento, nem ver a hora passar no trabalho, voltar pra casa satisfeito por dentro. Bater na cama e pensar: o dia foi bom. Bater na cama e pensar: eu fiz bem ao dia.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

PC

 Quando digo que sofro de ansiedade, não quero dizer que um nervosismo súbito faz companhia ao meu corpo vez ou outra. Quando digo que sofro de ansiedade, quero dizer que sofro de ansiedade. Sem o perdão da palavra; sofro. Sinto uma ardência congelante de dentro pra fora que parece corroer a camada mais profunda da pele, parece ser um frio que emana do coração e do estômago ao mesmo tempo. Dois icebergs pulsando a todo vapor e disparando lanças pontiagudas através de artérias exaustas, neurônios workaholic.

Respiração diafragmática então. Inspiro e expiro dez vezes, vinte, cinquenta. Me jogo sob a água quente do chuveiro e cerro os olhos no escuro, na tentativa de proteger o corpo do mais ínfimo estímulo externo. Deito e tento ouvir o coração, mudo de posição, entrego o corpo voluntariamente, e cada vez mais, ao colchão e, no entanto, coço a perna, mudo o travesseiro, penso naquilo, naquele, nele, nele, na fala, na intenção, em mim, no amanhã, no aniversário, na agenda, em 2026. Lanças e mais lanças impiedosamente ligeiras me atingem em cheio e, em vez de derrubar, me levantam, ando ardente pela casa, vou olhar o céu pela janela da sala, me sento a escrever, destroço a geladeira. Respiro fundo como se tivesse gosto o ar, como se fosse remédio, como se fosse acabar.

Uma ou três horas depois, cabeça na fronha novamente. O pensamento é o tolo de sempre: sou eu que mando no meu corpo, na minha mente. E repito o esforço ao não esforço mental eloquente. Nesses dias, geralmente, é o cérebro que vence - exaurido pela espera de um dono incapaz de colocá-lo pra dormir, sai por onde não vejo, sorrateiramente, e pressiona o Desligar. Saldo primeiro do dia: seu computador não foi encerrado corretamente.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Feijão com arroz

 Repara que a vida é também um linear de coisas supostamente desinteressantes que preenchem o cerne das grandes realizações, das loucuras, das tragédias e das glórias? Antes da Sexta, a Quarta-feira; antes do acidente, a seta ligada pra esquerda, uma das mãos jogada despretensiosamente sobre o volante. Um rodízio de sushi com drinks num Sábado barulhento, e o feijão com arroz de um dia estressante. E a louça na pia, o cachorro latindo, o vendedor de vassouras gritando, portas batendo, pessoas falando. O nada em tudo e a todo instante. A sonoridade fragmentária que dá voz às ruas, as formas da lua, um sol que nunca entristece. Um fazer orgânico, os pulmões incansáveis da engenhosa engrenagem dos dias simples; barulho de cebola dourando na panela, o cheiro que vai até o banheiro, perde-se o isqueiro, queima-se o chuveiro. O ônibus demora, o motorista cancela a corrida, divide um pix com tua amiga, acorda no meio da noite e se senta de olhos entreabertos na privada. A casa calada, cortinas em valsa, desamarrota tua calça e sai a trabalhar. Esquece o carregador do celular. Ajeita as alças da mochila. Sem querer, cochila - até que a montanha-russa se depare com a descida.