quarta-feira, 5 de maio de 2021

À minha mãe

"Estás ausente.
Mas há no amor
como que eterna
sobrevivência.
É como rosa
que não se corta
e nem se colhe 
pela manhã.

Estás ausente.
Mas este amor 
é bem aquele
feito de estrelas 
que persistiram
até que o dia
se aproximasse.

Estás ausente.
Viva e perene
nestes abismos 
do pensamento."

 (Hilda Hilst) 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

"Antes soubesse eu 
o que fazer com estrelas na mão.
Se dilacerar-lhes a ponta 
ou simplesmente não tocá-las.
Se estão perto cegam meus olhos.
Se estão longe as desejo.

Antes soubesse eu 
o que fazer com estrelas na mão."

         (Hilda Hilst) 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Tarde

 Me esvazio de sentidos

no escurecer das horas;

ao anunciar-se a noite tardia,

o gozo me apetece bem mais.

A poesia toma forma lá fora

e, como faço no findar dos dias,

me ponho a verter seus sinais.


segunda-feira, 15 de março de 2021

Ouvinte

Choro porque preciso dizer a mim 

densas coisas.

E assim também canto, 

para bradar a mim coisas outras;

tal qual escrevo, 

é claro, 

para ouvir de mim

algumas coisas.


terça-feira, 2 de março de 2021

Silêncios


O sufocamento e o rebuliço do meu peito sobem à garganta e têm gosto de você. Gosto de dúvidas, de incertezas, de confusão. Gosto de um tanto daquilo que eu deveria ter gritado antes. Efervesceram e borbulharam aos meus olhos há pouco. E então escorreram no rosto que anteontem tu beijou.

Deveria eu sentir menos para ter paz então? Não. O que sinto são partes de mim e podem ser partes que não tomei ainda, que não engoli, que não aceitei, que varri para baixo do tapete. Varri para baixo do tapete ao tentar nada transparecer, ao sair completamente armado, ao agredir, ao tentar me distrair em outros braços. Talvez eu reconhecesse esses erros de alguma forma e aquelas desculpas foram sempre a você, quando, na verdade, deveriam ser pra mim.

Desculpas, então, a mim... Que me vi no centro de uma teia de sensações e não as reconheci como minhas. Teias frágeis, de vidro, à disposição de outro. É claro que eu não queria aquilo. É claro que eu estava com medo. E ao tentar me proteger, aprendi que me esconder de mim mesmo pode fazer tudo ficar mais dolorido. Afinal, pra onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Vidraçaria particular

 Sentado no banheiro, os azulejos me olhavam com olhos gigantes. Cada um, um problema que inventei. Uns fantasmas que criei e que por vezes alimentei com fartura, alimentei com meu corpo, com meu tempo, com meu desgaste. Me olhavam os olhos dos meus medos, os olhos dos meus anseios atordoados, olhos do corpo que eu deliberadamente debilito, da mente que me bota de castigo e de uns desejos que não permeiam a necessidade.

Me olhavam através de azulejos retangulares, cada um em seu devido espaço, me sussurrando coisas, me mostrando outras, me gritando e me extremecendo. Também tinha a culpa, claro, que me olhava de cima, espaçosa, o teto todo pra ela. No espelho, o reflexo de umas relações mal cuidadas, porque eu precisava tomar conta de mim primeiro.

Tem dias que o cômodo mais convidativo da casa é o banheiro realmente. Pulo dentro da parede, me forço a caber naquelas arestas e divido meu claustro com um monstro imaginário, mas que é vivo e tá sempre por ali. Às vezes conversam, às vezes não querem nem ouvir. Já matei alguns - afoguei na privada, dei descarga e me senti mais leve. Outros, têm toda minha atenção, embora exprimam ordens e ditem regras violentas.

Fácil pensar que o melhor que eu faço por eles - e por mim - é parar de lhes dar a dosagem diária de ração, é negar um gole sequer de água, negar uma palavra e até uma olhada. Talvez eu devesse mesmo enxergar essas paredes de outra forma, com azulejos feitos de vidro, um vidro frágil, com espessura de papel e cor de ar. Deveria conseguir ver claramente através deles. E então poder quebrar um por um, acertá-los em cheio com um picador de gelo e dividi-los em milhares de partes solitárias. Ouvir os urros agudos de algumas dores se esvaindo para longe. Varrer, então, umas partes podres de mim do chão. E tomar atento cuidado para não pisar nos meus cacos pelo meio do caminho.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Insônia

  Queria me deitar sereno, sem rituais que não funcionam. Queria não conhecer cada minuto das madrugadas longas e não ser tão familiarizado com cada centímetro dessa cama. Queria não perturbar o sono do travesseiro e do lençol toda vez que meu corpo surta. Queria não dissecar desesperadamente esse teto de angústias, essas paredes de compromissos relativamente distantes, esse guarda-roupas de sonhos longínquos e esse ar de afazeres do amanhã. Queria não me abrigar no chão numas noites meio estranhas... E tampouco ser bailarino de uma mente tão dançante.

  Não me levantar sete vezes e me satisfazer com a temperatura do ar condicionado. Não lembrar que amanhã existe e deixar o céu da noite em paz. Não ter um celular, não ter que planejar, nunca me preocupar e nem sequer pensar. Queria eu. Queria eu... Nada de braços dormentes e costas coçando. Nada de dor de cabeça ou coração palpitando. Levantar às 3h pra despejar coisas no papel em branco? Nem em sonho. E jamais atender as ligações dos meus demônios.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Tempo


Existir no tempo que toca tudo,
tempo que tudo toca.
Tempo que transforma a poesia,
tempo que a poesia transforma.

Falar sobre o agora que já não o é
e sobre o futuro que não se sabe se será.
Viver à espreita do nada e da incerteza 
porque o passado não foi o que planejara. 

Sumir das horas e voar aos ventos, 
desgarrar dos ponteiros, olhar pra dentro,
flutuar para além em algum momento 
e só voltar quando o relógio gritar.

Se atracar com os segundos então, 
e sangrar as nebulosas exigências do tempo.
Correr contra nem sei o quê,
ir rápido pra chegar não sei onde.

Vencer algo que nem existe
mas que é cru e vivo
e eu não sei onde se esconde. 


quarta-feira, 20 de março de 2019

Carnaval


O carnaval passou e desorganizou um pouco nossa desordem. Veio girando feito um furacão bêbado e encontrou a gente no meio da rua com uns copos nas mãos. Nos sugou aos ares, lançou aos ventos, às músicas, aos amigos e a uns venenos de adulto. Atiçou, eletrificou e nos tirou pra dançar sem muito direito a descansos. Os pés cansados e fortes, o corpo quase sempre suado e a bebida gelada. E as pessoas com a gente, as pessoas pra gente, e a gente com e para elas. A rua pra gente, o canto da gente e o dos outros também.

Dentro dos ventos fortes e coloridos dessa ventania, a gente se pintou de azul, rosa, prateado e verde florescente. A gente se enrolou em arco-íris e brilhamos sob sol, chuva e lua. A gente comeu e bebeu na rua, dançou e descansou na rua, beijou e se abraçou na rua, militou e resistiu na rua. Nossos corpos, vozes e presenças ecoaram espectros de luz e incendiaram e acenderam espaços, encantaram pessoas boas e se encantaram com elas.

E a nossa casa é que esperasse o furacão nos soltar. Não é todo dia que se está coberto de glitter comendo numa lanchonete com amigos. Não é todo dia que se sai às ruas sem saber ao certo pra onde, tendo a certeza de que vai achar uma coisa boa por aí. Não é todo dia que o boçal do nosso presidente é afrontado, de diversas maneiras e por diversas pessoas, das formas mais maravilhosas e criativas possíveis.

E pra não dizer que não falei das coisas ruins... Faz de conta que falei. Ou então dá uma olhada em qualquer noticiário de hoje, de ontem, de uns meses ou uns anos atrás. Tá tudo lá. Os chamados “males que o carnaval traz” não são trazidos pelo Carnaval propriamente dito, ou pelo menos não têm muito a ver com ele. Ele só chega e expõe algumas coisas que na verdade já acontecem há muito tempo. E a falta de educação de algumas pessoas cabe aqui como melhor exemplo.

Ninguém deve temer o Carnaval, como infelizmente tem acontecido. Ninguém deve temer sair na rua e encontrar pessoas cantando e dançando, e cantar e dançar também se quiser. Sair de casa e olhar para os outros com um olhar de cuidado já é resistência em 2019. Já é uma força contra aqueles que agem de forma contrária. Precisamos ser maiores e precisamos ser mais. E fazer lembrar que carnaval é alegria, história, cultura, música, amizade, energia e amor. Claro: A forma como cada um vai receber e passar isso é uma escolha absolutamente individual. Carnaval é essa ideia maravilhosa e quem põe em prática é você.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Túnel


Voltar pelo caminho de mim e me recolher as partes, os estilhaços, os membros espalhados de mim mesmo. Olhar para trás e ir até lá. Se aproximar com cuidado, mas sem medo, e entender a cara de todas as minhas mortes. Refazer uns pontos em mim e chorar o que não chorei, falar o que não falei e apreender o que me foi negado. De pés calmos, caminhar sem pressa pelos meus túneis e resgatar os prisioneiros que escondi, e que depois se esconderam de mim.

Colocar tudo em seu devido lugar. Ou tentar. Revisitar os porões que ficaram abertos, entender porque algumas luzes se apagaram e acendê-las quando for preciso. Tatear no escuro e achar umas chaves que estavam lá o tempo todo. Ir abrindo algumas portas então, ferrolhos de ferro, sistemas elétricos, e encantar uns cães raivosos. Ir liberando alguns sinais, algumas trancas e algemas, fazer as coisas acontecerem, fazer a água rolar e meu trânsito fluir.

Voltar em mim pra me fazer suceder, pra ressuscitar o bom que tenho ou tinha. Ressuscitar o bom de mim e agregar ao melhor que tenho agora, sair andando, gritar pra fora. Gritar pra fora minhas velhas novas partes, meus redescobrimentos de mim. E seguir em frente e esquecer também umas partes pelo caminho futuro, e perder outros membros e aprender um pouco mais, coletar outras coisas e passear por outros bosques, por outros pântanos, por outras trilhas de mim.