quinta-feira, 24 de julho de 2014

Quando falta luz


De vez em quando acontece na casa de todo mundo: falta energia ou, numa linguagem mais coloquial, acaba a luz. Aposto que na maioria das vezes a luz em si é o que menos importa. A falta de energia significa que ficaremos sem TV, sem chuveiro quente, sem carregar o celular e, claro, sem o venerado computador. E sabemos muito bem que, nos dias de hoje, ficar sem tudo isso é um convite ao tédio.

Mas não é de todo ruim, vai. Nessas circunstâncias a gente também é estimulado a conversar com quem está por perto, dar mais atenção ao nosso bicho de estimação, pegar um livro pra ler, sair para dar uma volta ou simplesmente tirar um cochilo. Sem sermos bombardeados por tanta informação, nos sentimos mais leves. Ainda que na marra.

Um exemplo desse possível divertimento carente de tomadas plugadas eu vi um dia desses, num episódio de uma série cômica americana, cuja tradução feita para o português foi Eu, a patroa e as crianças. A energia da casa acaba e a família passa a se divertir no escuro: jantam à luz de velas no jardim, brincam com lanternas e jogam mimica.

Só resolvi escrever sobre isso porque não consigo gostar da ideia de só estarmos satisfeitos e de bem com a vida quando estamos com a bunda enfiada no sofá e os olhos voltados pra uma tela – seja ela qual for. Tá, não vamos fazer o mesmo que o pessoal da série e explodir de alegria toda vez que a energia for embora. Como a maioria, também odeio banho frio, tenho amigos esperando respostas em redes sociais e solto um "AEEEH" quando os aparelhos começam a ser ligados e as lâmpadas a acender. Mas daí tiro uma coisa: a energia pode ir embora. Mas não precisa levar nossa luz.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A timidez do Eu te amo

  Um dia desses, um pouco antes de dormir, conversei e ri bastante com minha irmã. Falamos sobre seu novo namorado, sobre relacionamentos em geral, sobre sentimentos. E então fomos dormir com aquela leveza gostosa que boas risadas sempre nos proporcionam.

Na manhã seguinte ela se levantou cedo, como de costume, e foi trabalhar. Eu acordei por volta das 10 e, como sempre e eu não devo ser o único, fui logo tratando de achar meu celular em algum canto da cama. Chequei as mensagens e a mais recente me havia sido enviada na noite passada, por volta das 23 horas. A mensagem dizia: “Vc é meu melhor amigo. Eu te amo.” Adivinhem de quem era a mensagem... Isso mesmo, da minha irmã.

A pergunta é: por que me escrever uma mensagem dizendo isso se estávamos, na hora em que ela foi enviada, conversando cara a cara? É tão difícil assim demonstrar afeto e verter seus sentimentos a alguém? Pode parecer bobagem para alguns, mas isso é mais comum do que parece. Eu compreendo a dificuldade e sou fiel possuidor dela.

A verdade é que não importa a intensidade do amor ou de algum outro sentimento que temos por alguém, às vezes as circunstâncias e o medo da reação e de um ligeiro constrangimento não nos permitem abrir a boca e pôr em palavras o que sentimos. Vamos guardando tudo dentro de nós, deixando transparecer esses sentimentos afogados em ações espontâneas. Quantos “Eu te amo” não proclamados por aí, não é mesmo?!

Pra concluir: isso não significa de forma alguma que amamos menos do que os corajosos que rompem essa barreira com facilidade. Pelo contrário, vindo da minha irmã, com quem não troco palavras afetuosas quase nunca e quando o faço a estranheza é inevitável, ainda que um tanto acanhado, um Eu te amo nunca me soou tão verdadeiro.  

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Besteiras que circundam a homossexualidade feminina

A homossexualidade hoje em dia é vista por muitos como algo que não deveria existir, algo repulsivo, que só existe porque aconteceram descuidos, desvios imperdoáveis de uma moral. Não cogitam a possibilidade de pessoas sentirem, de fato e inevitavelmente, atração por pessoas do mesmo sexo, e consideram a homossexualidade e sua prática apenas uma maneira irreverente de desrespeito a coisas que consideram sagradas e fundamentais. Os que compreendem a inevitabilidade desse desejo sexual, apelam absurdamente para argumentos que reivindicam a reclusão dele. Reivindicam que homossexuais não exerçam suas vontades e se escondam em si mesmos para o agrado do todo.

Há também aqueles que passam a aceitar a homossexualidade alheia, à medida em que estabelecem com esta alguma relação que os favoreça de alguma forma. É o caso da fetichização da homossexualidade feminina por parte de homens heterossexuais. Estes veem nesta prática uma única utilidade: obter prazer de alguma forma.

É inegável que muitos homens possuem fantasias sexuais envolvendo duas mulheres, estejam elas se relacionando com ele simultaneamente, estejam elas se relacionando entre si. A existência dessas fantasias é algo saudável e completamente natural. Entretanto, é a partir delas que seus idealizadores passam a internalizar a falsa ideia de que a prática da homossexualidade feminina é útil apenas para servi-lo. O que reforça as ideias de que o correto mesmo é "mulher com homem", que isso é apenas mais um artifício para o alcance de sua satisfação, assim como é uma revista erótica e um filme pornô, e que os desejos sexuais das mulheres não importam tanto assim, devem estar sempre girando em torno dos desejos de um homem.

À medida em que a relação entre duas mulheres não obedece aos desejos desse homem, ela deixa de ser admirável e aceitável. Enquanto sua libido, sexualidade, seu imaginário estão sendo estimulados por tal prática, o fato de ser duas mulheres, duas pessoas do mesmo sexo, pouco importa. E isso se dá quando estão nuas, exibindo seus corpos, se relacionando fisicamente, ou seja, satisfazendo-o. Por outro lado, quando essa prática parte para o lado não físico, para o lado emocional, o lado que culturalmente representa que duas pessoas se gostam e mantém uma relação amorosa, a prática passa a ser incompreendida e hostilizada. 

Dito isto, fica claro como egocentrismo e machismo estão impregnados na sociedade e como isso sustenta crenças e comportamentos. O que falta em muitos homens é a capacidade de aceitar que a mulher possui desejos sexuais particulares e próprios e que sua sexualidade não gira em torno da deles. Portanto, o fato de uma mulher se interessar por outra, significa nada mais, nada menos que ela é um ser livre e com desejos. E esses desejos e a vontade legítima de saciá-los, nenhuma força externa baseada em diretrizes toscas é capaz de destruir. 

domingo, 22 de junho de 2014

Sexo casual

Entenda que você irá ao local com um propósito e que esse propósito será destruído pelo fogo. O fogo que incendiará a cama, o sofá, o banheiro, o chão. Quando teus músculos não mais estiverem enrijecidos, a camisinha estiver no lixo e o fogo apagado, é hora de ir. E o que foi dito em meio às chamas vira cinzas. Cinzas que você não tem direito de guardar num pote.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Proibido amar



Nunca me apaixonei por ninguém. Tampouco amei. Talvez eu tenha desenvolvido um sistema de segurança inconsciente, que me faz correr desesperadamente quando alguém invade um território indesejado e ativa sutilmente minha ternura. E eu devo correr rápido, me fechar rápido, me virar, cerrar os olhos e cessar as palavras. Eu não sei, não percebo. A sensação é de que nunca nem cheguei perto, nunca tive sequer um nó dessa coisa que pulsa em meu peito desatado pelo que eles chamam de amante.

Esses romances que leio não me lembram ninguém. As músicas de amor que canto não falam por mim. Os filmes apaixonados que assisto jamais imitam o que minhas retinas já reproduziram um dia. Nada disso me serve, nada disso provei. É como adorar laranjas sem nunca ter experimentado de seu doce e de sua azedura.

Mas vou continuar comprando as laranjas ou o que quer que caiba nessa metáfora barata. E elas estarão lá, prontas para serem completamente compreendidas quando meu coração resolver se rebelar. 

sábado, 31 de maio de 2014

A droga do pertencimento

Quem te pertence, não pertence a ninguém
Nem a ti, nem a ninguém
O amante, o caso da noite passada ou o grande amor de tua vida
Nenhum deles teu, nenhum deles meu, todos eles de ninguém 
E você, que também é amante, que de alguém é o caso, que por alguém é amado
A ninguém pertence
Por ninguém é herdado

Se te dizem que são teus, convenção ou tesão
Se te dizem "é meu", mesmos motivos em ação
Ama e transa, faz sorrir tua vontade
Não joga, porém, o jogo da propriedade

Porque nem uma canção de amor
Nem a declaração mais bela
Nem um milhão de rosas te farão dela

Nem as mais sinceras lágrimas
Nem a gigantesca vontade
Nem que tu queiras será dele propriedade

É certo que os ciúmes vem
É certo que eles vão
Assim como as paixões, sem perdão
Poupa teu tempo então
Cultiva a parte clara
Evita a desavença
Jamais possua
Jamais pertença












sábado, 10 de maio de 2014

Destinatário Mundo

Ei, mundo
Você podia me esquecer só um pouquinho
Me abandonar numa dessas tardes cheias de nada
Me virar as costas com desprezo
Me doar, me leiloar, me vender
Sumir de mim
Não é pedir muito
Me esquece atrás de uma estante qualquer
Me envia para o fundo do mar
Me deixa cair numa fenda
Me implode
Me chuta pra longe
E então continua teu ridículo espetáculo
Amadurece tua rudez e crueldade
Incentiva o ódio e aniquila teus inquilinos
Agita teus oceanos
Gira com aspereza
Mas não demora muito, não
Eu vou te observar de longe
Só volto quando teus céus não mais estiverem espessos
Quando teus leitos estiverem tranquilos
Quando me acordares sorrindo


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Montanha-russa

Vai, levanta. Levanta logo.
Essa escuridão que te cerca é de papel.
Rasga. Respira. Se vira.
Não rola nessa lama que te abriga.
Não insiste no vazio do perdido.
Não nada em areia movediça.
Enfeita a casa, balança o corpo.
Come um pedaço daquele bolo.
Vem aqui fora, encanta umas coisas.
Sobe no telhado.
Olha a vida de cima.
E então cai de novo.





domingo, 20 de abril de 2014

Estranho

Cheguei de cara fechada, num transe lindo. Entrei no banheiro e gargalhei em frente ao espelho. No banho, olhos fechados. Me olharam. Permaneci calado. Cheguei estranho e meu corpo não conta a ninguém o porquê. Não diz onde. Não diz o quê.

domingo, 6 de abril de 2014

Robots















This morning I've got a hangover
And I've discovered my money's over
That's ok cause there's little favors and credit card
And I'm getting naked on my yard

I hope salad for lunch cause I don't want extra-weight
I want a plastic surgery and never look like sixty-eight
I wanna be thin and blond like you
Someone told me I should get out of blue

Let me get into your ferrari
Take me out for an yacht ride
I'll let you touch my body
I assure I'll reduce my pride

You've never seen me on stages
You've never seen me on the magazine
I'm always on last pages
And I don't have a "fan machine"

I feel so sad and that's all
But it will pass
Oh, it will pass
Tonight I'm going to the mall