terça-feira, 4 de julho de 2017

Por Felipe Domingues

Te batizar de novo
Te nomear num traçado de estrelas
Em vez de Igor
Te chamar céu da noite
Livro de poesia
Escritor
Suco de uva
Gozo
Amor, por que não?

Te recriar nuns arco-íris da alma
Nuns possíveis construir teu nome
E cantar teus nomes perecíveis

Lua
Doce
Torta de limão

Gato
Por que não?

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Didática


Eu poderia fazer uma pesquisa, reunir recortes de artigos, te indicar uns livros ou te escrever um email tentando te explicar o que é, como é, quais as causas e efeitos. E te falar das sensações, das alegrias e das angústias. Entenderias? Eu sei que teria feito muito menos do que o suficiente. Teria feito quase nada, tendo o tal do amor como referencial.

Eu poderia te mostrar umas músicas então, e gritar com força cada verso. Poderia guiar tua mão até meu peito acelerado, te convidar pra um passeio a três e te contar a sensação de acordar a dois. Te falaria sobre a vida de antes e sobre a de depois. Caminharíamos por uns lugares eternizados em mim, e eu discursaria assiduamente sobre o que sentira ao estar ali. Tu saberias dos beijos, dos risos, das mãos dadas e da força que elas carregam. Suficiente? Nem perto.

Eu vou sair berrando pelas ruas, vou tatuar minha testa, dar uma baita festa e discursar no microfone. Vou me drogar e, em estado alterado, tentar tudo de novo. Vou te escrever cinquenta textos, te ler outros vinte, e te cantar tudo aquilo que toca aqui dentro. Vou invadir tua casa, derrubar as paredes e deixar umas notas na geladeira. E agora, sim? Não. Ainda não.

Eu danço, eu faço mimica, eu convulsiono na tua frente. Eu fico nu, eu mostro os dentes. Encho um copo com minhas lágrimas e te empurro goela a baixo, te dou um banho de sangue quente, te envio meu cérebro pelo correio. Arranco meu coração com uma das mãos e esfrego na tua cara.

Vê? Não vê.

domingo, 2 de abril de 2017

Erupção cardíaca

Bateu na porta e me demorei.
Arrombou então, pois não espera.
Chega e invade.
Adentra.
Toma.
Molha, inunda, enche.
Borbulha.
Transborda.
Queima.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Recado

Desculpe meus silêncios desatentos e meus olhares longíquos. É que eu coleto coisas simples e leves por aí. E disseco e devoro coisas outras. Volto na linha do tempo que passa por mim e costuro por cima dela, desfaço e refaço uns pontos, espeto o dedo na agulha e sangro vez ou outra. Tenho saudades de tempos não tão distantes... Eu os resgato e os penduro em meus ombros sempre que posso. Me perturbam o medo, a saudade, a paixão e eu mesmo. Me consolam os pensamentos de ti, os pensamentos de um futuro bom. Me melhora você aqui, seu jeito, sua graça, seu tom.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Nuvem

Hoje tem céu de brigadeiro coberto com uma camada fina de açúcar. Um azul forte que dói e uns frágeis tecidos alvos que se esqueceram por ele. Tu é aquela nuvem ensolarada ali, estacionada, clara e leve marcando presença no meu cenário. Chama minha atenção só por ser como é, ter a forma que tem e reverberar todo esse brilho, que meu céu recebe de braços abertos.

E pode ficar por aí. Vou te olhar a vontade durante os dias e conhecer tuas cores, teus modos e estados. Transforma-te no que quiseres e enfeita esse meu campo de visão, esse meu período de tempo, a minha vida aqui e agora. Preenche esse céu que chamo de meu, porque afinal cada um tem o seu. Passeia por ele pintando tuas nuances e desfilando tua bagagem, tua história, tua carga... Que sei que por vezes se faz maior, fica pesada. Sei dos tons escuros e dos trovões que podem assolar alguns dos teus dias. Sei que às vezes o cinza aperta, faz a festa, e tudo em ti liquidifica.

Nesses dias, os de iluminação anêmica, quando és menos algodão e mais água, menos flutuante e mais denso, quando já não sustentas toda aquela carga, eu aqui do meu canto, assistindo teu peito enchendo, teu choro crescendo e querendo cair, mando um aviso pelo vento:

pode chover em mim.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Abrindo o coração

Queria eu poder falar de sentimentos sem tremer na base. Queria eu poder te guiar por uns becos largos do meu coração sem que eles, teimosos, chacoalhassem suas paredes meladas e me fizessem arrepiar de ponta à ponta.

Não sei se sou bom em apresentar o que quer que seja, mas faria um esforço pra te fazer passear por cada uma dessas cavidades chafurdadas em coisas que o tempo deixou e deixa. Bom... esse senhor já me trouxe alguns presentes extraordinários e eles já estão eternizados em minha parede de boas recordações. Outros, porém, apenas guardo, e quando ele me permite vou lá dar uma olhada e tentar transformar em algo bom ou minimamente tragável.

Quando estiver por aqui, por essas ruas de vermelhidão sangrenta, verá caixas abertas repletas de coisas sublimes disponíveis a ti e a tantos outros. Eu posso até jurar que não sou nem um pouco mesquinho com nada disso. Então pegue, leve, faça ótimo proveito.

Preciso te contar também sobre os pântanos e sobre um sangue mais escuro que jorra numas noites não tão boas. Não se assuste com as marcas que ainda não receberam a graça do tempo e não podem ser chamadas de cicatrizes. Você poderá me ajudar se quiser, se souber, se puder. E eu farei todos os esforços pra amordaçar a droga do orgulho.

Ah, e que processo complicado todo esse aí. Isso é pra quem gosta de se aventurar de verdade. E não te demores nos braços do medo, ele que às vezes gosta de abraçar e não soltar nunca mais.

Por fim, se formos bem sucedidos em tal jornada, se sentirá um pouco mais em casa aqui dentro, aqui no fundo. E terá total aptidão pra perambular por aqui sozinho.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Mar

Às vezes surge na tarde aquela vontade de pegar um corpo qualquer e pôr a me ouvir. E com admirável eloquência vomitar o que carrego dentro de mim, o que carrego na mente e no peito, o que não aceito, o que não tem jeito. Falar das ondas escuras que eventualmente assolam os dias... Aquelas que voltam com força, que não se anunciam, simplesmente crescem e te engolem. Que veem, que vão. Que chegam, que partem. Porque na verdade é disso que se trata tudo isso aqui. Ciclos, fases, repetições, e a nossa resistência, e a nossa luta, e o nosso gozo.

Seria eu o resmungão do século então? Longe de mim. Discursaria também sobre as gostosas calmarias, sobre os leitos tranquilos que dormem sob nossas estrelas longíquas e sobre nossos momentos de ascensão e flutuação sobre águas cristalinas. Sou extremamente grato às tréguas que esse mar nos dá, sou grato aos que estendem as mãos em tempos de ressaca e à beleza que cai sobre a praia, nos dias em que tsunamis são apenas distantes lembranças.

Falaria, por fim, de meu real desejo: que sempre retornemos incansáveis à superfície, sem jamais nos deslumbrarmos pela beleza feia de uma profundeza qualquer.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Devaneio-me

Meu coração palpita, pedindo mais. Sinto um frio percorrer todo meu dorso e baldes de gelo são despejados em minha nuca e abaixo de meu diafragma. Um frio que antecede uma sede por calor. Sede com fúria, sede com dor. Porque essa coisa pulando dentro de mim não está satisfeita com mera quentura viscosa e avermelhada. Porque basta a noite ganhar corpo que ele tem fome, ele tem sede, ele convulsiona de desejo.

Eu vou sair pra perambular pelas ruas então, e vagar meu espírito por lugares sagrados, por lugares sedentos, lugares sangrentos. Lugares que avistam o sol antes dos olhos bêbados da manhã, e lugares onde o vento não faz visita. Quero caminhar sem pressa, de modo a alimentar aos poucos essa minha vontade de comer o mundo. Ah, o mundo... O mundo e seus pedaços desgostosos, pedaços insossos e sebentos. Pedaços que estão prestes a apodrecer na geladeira, aqueles restos que lambemos diariamente.

Mas não, não quero. Vou me virar em centenas de esquinas e admirar casas de ruas escondidas, os postes e as paredes sujas. Redesenharei algumas construções, pra que se encaixem melhor em meus sonhos embaçados. Meus pés brincarão com cada deformidade do chão quente, e o descreverão tão bem quanto minhas narinas descreverão a densidade dos ares urbanos, o odor das sarjetas e algumas fragrâncias bucólicas.

Minha língua, mais luxuriosa do que nunca, vai sentir o gosto de outras muitas, e também o de verdes desconhecidos e o de cores não imaginadas. Minha pele, por sua vez, será nada hermética. Um convidativo lenço protetor de toda uma fartura almática, a porta de um estoque de rútilos e sombras disponíveis a mim. Disponíveis a quem alcançá-los. Meu coração, por fim, baterá mais forte e mais saudável, bombeando tudo pra fora, tudo com vontade, tudo com amor.



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Lua


A ti envio todo amor 
que a lua me ensinou.
Esse amor que é de fases
e nem sempre enfeita noites.

Esse amor que por vezes
se perde em brumas escuras
ou simplesmente nem aparece a ti.

Esse amor que, apesar do dito,
alguma noite se mostra invicto 
e brilha tal qual brilhava antes. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Pequenas infelicidades


A chuva, quando marcamos de ir à praia, e o dia lindo, quando temos um dia de trabalho pela frente.

A chave que quebra dentro da fechadura e o arroz que queima por baixo.

A bateria do celular fraca quando precisamos sair as pressas.

Um ovo quebrado na caixa e a pedra de gelo caída ao pé da geladeira.

A campainha tocando quando se pega no sono.

Guarda-chuvas abertos e esbarrões em calçadas estreitas.

Maçã na salada de maionese.

Comprimido entalado na garganta.

Noite sem lua.

O sinal que demora a fechar.

A moeda que cai no bueiro e a caixa que não tem troco.

Celular tocando no ônibus, no metrô, na fila de qualquer lugar burocrático.

Olheiras, terçol, espinhas.

Casa bagunçada.

A dolorosa percepção de que aquilo que fizemos com notável esforço e capricho ficou uma merda.