quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Devaneio-me

Meu coração palpita, pedindo mais. Sinto um frio percorrer todo meu dorso e baldes de gelo são despejados em minha nuca e abaixo de meu diafragma. Um frio que antecede uma sede por calor. Sede com fúria, sede com dor. Porque essa coisa pulando dentro de mim não está satisfeita com mera quentura viscosa e avermelhada. Porque basta a noite ganhar corpo que ele tem fome, ele tem sede, ele convulsiona de desejo.

Eu vou sair pra perambular pelas ruas então, e vagar meu espírito por lugares sagrados, por lugares sedentos, lugares sangrentos. Lugares que avistam o sol antes dos olhos bêbados da manhã, e lugares onde o vento não faz visita. Quero caminhar sem pressa, de modo a alimentar aos poucos essa minha vontade de comer o mundo. Ah, o mundo... O mundo e seus pedaços desgostosos, pedaços insossos e sebentos. Pedaços que estão prestes a apodrecer na geladeira, aqueles restos que lambemos diariamente.

Mas não, não quero. Vou me virar em centenas de esquinas e admirar casas de ruas escondidas, os postes e as paredes sujas. Redesenharei algumas construções, pra que se encaixem melhor em meus sonhos embaçados. Meus pés brincarão com cada deformidade do chão quente, e o descreverão tão bem quanto minhas narinas descreverão a densidade dos ares urbanos, o odor das sarjetas e algumas fragrâncias bucólicas.

Minha língua, mais luxuriosa do que nunca, vai sentir o gosto de outras muitas, e também o de verdes desconhecidos e o de cores não imaginadas. Minha pele, por sua vez, será nada hermética. Um convidativo lenço protetor de toda uma fartura almática, a porta de um estoque de rútilos e sombras disponíveis a mim. Disponíveis a quem alcançá-los. Meu coração, por fim, baterá mais forte e mais saudável, bombeando tudo pra fora, tudo com vontade, tudo com amor.



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Lua


A ti envio todo amor 
que a lua me ensinou.
Esse amor que é de fases
e nem sempre enfeita noites.

Esse amor que por vezes
se perde em brumas escuras
ou simplesmente nem aparece a ti.

Esse amor que, apesar do dito,
alguma noite se mostra invicto 
e brilha tal qual brilhava antes. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Pequenas infelicidades


A chuva, quando marcamos de ir à praia, e o dia lindo, quando temos um dia de trabalho pela frente.

A chave que quebra dentro da fechadura e o arroz que queima por baixo.

A bateria do celular fraca quando precisamos sair as pressas.

Um ovo quebrado na caixa e a pedra de gelo caída ao pé da geladeira.

A campainha tocando quando se pega no sono.

Guarda-chuvas abertos e esbarrões em calçadas estreitas.

Maçã na salada de maionese.

Comprimido entalado na garganta.

Noite sem lua.

O sinal que demora a fechar.

A moeda que cai no bueiro e a caixa que não tem troco.

Celular tocando no ônibus, no metrô, na fila de qualquer lugar burocrático.

Olheiras, terçol, espinhas.

Casa bagunçada.

A dolorosa percepção de que aquilo que fizemos com notável esforço e capricho ficou uma merda.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Tempos engraçados

O tempo escorre pelas brechas

Do que quer que eu faça

E passa logo, nem disfarça

Ri de minha lentidão e desgraça

E depois se junta a mim,

Pra fazer um pouco de graça

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Felicidade

Saí de bolsos cheios, porque o pagamento tinha caído. Entrei em três lojas daquelas muitas e não vi tempo a venda. Noutra, nem no estoque restava amizade. Outras duas: amor fora de linha e coleção de sonhos esgotada. Só mais três. Frascos de esperança vazios e uma felicidade pela qual eu não queria pagar.
Mas tinha plástico, tinha pano, tinha máquina. Tinha comida que mata. E tava todo mundo feliz.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Combustão

 Acorda no susto e pula, e corre, e perambula entre uns móveis traiçoeiros. O rosto seco e amassado, como saco plástico que fora diminuído a nada e depois fora tomado por ar. Os pés descalços e as mãos agitadas, tateando as paredes do corredor pouco iluminado. Toma um banho chato, escova os dentes logo, põe a roupa rápido e mastiga algo trivial e engole. E corre, e volta pra buscar as chaves. Desce as escadas com pés afoitos, esquecendo-se de diversos degraus, e faz a mão passear pelo bolso, procurando uns trocados sujos para a tarifa do ônibus. Que caro esse ônibus! E ele não espera, ele às vezes nem para, nem te olha, ou olha na tua cara e vai embora. Quando te acolhe, não raro é num calor abrasante, te pega nos braços e queima teus miolos, te escorre roupa a baixo, te sacode num ritmo apressado. Tu em pé, eles em pé, o suor em tua testa, o suor na testa deles, oitenta quilômetros por hora lhes comendo vivos.


Está tudo muito quente em tua vida. Tua cidade, teu bairro, tuas ruas e calçadas, tua cozinha e tua cabeça. Até a água do chuveiro elétrico desligado, por vezes, te escalda, fere tua pele e te contorce a face. O sol emana um fogo que te afoga, que te cansa, e a sombra já não te cura mais de nada. Porque toda essa fúria dos dias cálidos não esfacelam tuas angústias e teus desgostos como esfacelam a ti. As labaredas da rua não queimam a lenha que os desgastes dos dias produziram, não queimam tuas tarefas enfadonhas, não queimam tuas contas com o diabo, tampouco queimam teus desejos ambiciosos.


segunda-feira, 7 de março de 2016

Ode ao álcool

Às vezes o que queremos é entrar no clima de falar o que nunca falamos e agir muito mais fielmente com o que está em nosso interior. A intenção é sempre descontrair, claro, mas inevitável é que os pecados e os maus presságios se afogam em todo esse relaxamento. Se afogam em desespero dentro de um corpo que se debate em gargalhadas, expele palavras chulas e faz da sexualidade uma entidade divina.

Vamos permanecer ali sentados até que por nossos lábios passem novidades em direção a ouvidos já conhecidos e que nossas bochechas adormeçam, juntas com todos os moldes morais que nos causam desconforto, e uma doença chamada compostura. Essa anestesia se abrange ainda mais e atinge nosso constrangimento, nosso pudor, que passam a ser sentimentos mortos dentro de uma infinidade de coisas boas ou, no mínimo, prazerosas.

Arrancamos a compostura das vísceras, do estômago, do fígado, e a penduramos num varal, só pra não perdê-la de vista. E surgem então as risadas sem explicação, aquelas que são as mais gostosas. Surgem choros de lágrimas que foram bebidas previamente e alegrias que logo mais irão embora. E, claro, possibilidades perigosas que podem ou não nos pegar pela nuca e soprar a compostura pra longe.


No final de tudo a gente talvez não se lembre dos grandes fatos embebidos em petulância e despudor. Talvez aleguemos que jamais repetiremos a dose (ou as doses), mas assim como a tal da compostura, os sentimentos precursores de toda essa admirável bagunça são recidivos. E daqui a alguns dias ou semanas estaremos ali de novo. Porque temos toda a legitimidade do mundo ao querermos escapar um pouquinho de nós mesmos.

sábado, 21 de novembro de 2015

Te vivo

Meus pés deslizam sobre os teus algumas vezes por semana.
O resto dela passam procurando por ti.
Meus lábios gastam dias inteiros gastando os teus,
E logo depois reverberam todo o teu gosto.
Em uns poucos e iluminados dias eu me atraco com toda a volúpia de tua carne, coleto rútilos do teu espírito.
Em todos os outros eu te tenho sem te ter. Presença e cheiro. Lembrança e arrepio.
Visto tuas roupas em vez das minhas, sinto teu perfume no lugar do meu. Me olho no espelho e vejo a boca tua, cada sorriso me lembra o teu.
Tem dias que espalho meu corpo sobre ti,
Tem dias que te busco nos vazios de minha cama.
Nuns dias te enxergo, e noutros te preciso.
Tem dias que te tenho. Tem dias que te vivo.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Meu acerto

Tu é como a lua às seis da tarde.
Bela,
em toda sua imperfeição.

Te levo comigo
no peito e nos olhos,
e no vago dos minutos tranquilos.

Te esqueço e depois resgato,
me perco e depois me acho
em passos leves e despreocupados
que surgiram depois de ti.

Tu é meu antídoto semanal,
é minha cura do mal
e meu refúgio de mim.

Tu é errado como minha gramática,
te ponho em prática
e soa melhor assim.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Castelo de cartas

Eu vivo na calma das horas, nas brechas dos dias, nas sombras lá fora. Meus fantasmas são esculpidos com exímio talento e guardados detrás da estante, embaixo da cama, dentro do sótão da consciência.

E apesar do meu olhar caído em manhãs indigestas, apesar dos gritos internos de horror em noites claras, o que os ofereço é apenas um pouco mais do que surdez e cegueira cínicas. Se debatem em intenso desespero enquanto os cubro com lençóis vagabundos e mal confeccionados, que comprei num mercado de ilusões baratas.

Os buracos se abrem no tecido fino e passo a costurar retalhos de pensamentos aleatórios num espectro cinza embaçado. Remendando remendos, enganando a qualquer um exceto a mim.

Espero algumas respostas me pegarem no colo e a elas me ato. Num nó cego, num nó farto. Mas a linha logo arrebenta, ela sempre arrebenta. O submundo Consciência deixa o preto e branco pra trás e passa a ser vivo. Vermelho sangue, amarelo sol. E eu vou a baixo, numa queda fragmentada, numa queda justa, pelo precipício que ajudei a construir.