quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Lua


A ti envio todo amor 
que a lua me ensinou.
Esse amor que é de fases
e nem sempre enfeita noites.

Esse amor que por vezes
se perde em brumas escuras
ou simplesmente nem aparece a ti.

Esse amor que, apesar do dito,
alguma noite se mostra invicto 
e brilha tal qual brilhava antes. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Pequenas infelicidades


A chuva, quando marcamos de ir à praia, e o dia lindo, quando temos um dia de trabalho pela frente.

A chave que quebra dentro da fechadura e o arroz que queima por baixo.

A bateria do celular fraca quando precisamos sair as pressas.

Um ovo quebrado na caixa e a pedra de gelo caída ao pé da geladeira.

A campainha tocando quando se pega no sono.

Guarda-chuvas abertos e esbarrões em calçadas estreitas.

Maçã na salada de maionese.

Comprimido entalado na garganta.

Noite sem lua.

O sinal que demora a fechar.

A moeda que cai no bueiro e a caixa que não tem troco.

Celular tocando no ônibus, no metrô, na fila de qualquer lugar burocrático.

Olheiras, terçol, espinhas.

Casa bagunçada.

A dolorosa percepção de que aquilo que fizemos com notável esforço e capricho ficou uma merda.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Tempos engraçados

O tempo escorre pelas brechas

Do que quer que eu faça

E passa logo, nem disfarça

Ri de minha lentidão e desgraça

E depois se junta a mim,

Pra fazer um pouco de graça

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Felicidade

Saí de bolsos cheios, porque o pagamento tinha caído. Entrei em três lojas daquelas muitas e não vi tempo a venda. Noutra, nem no estoque restava amizade. Outras duas: amor fora de linha e coleção de sonhos esgotada. Só mais três. Frascos de esperança vazios e uma felicidade pela qual eu não queria pagar.
Mas tinha plástico, tinha pano, tinha máquina. Tinha comida que mata. E tava todo mundo feliz.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Combustão

 Acorda no susto e pula, e corre, e perambula entre uns móveis traiçoeiros. O rosto seco e amassado, como saco plástico que fora diminuído a nada e depois fora tomado por ar. Os pés descalços e as mãos agitadas, tateando as paredes do corredor pouco iluminado. Toma um banho chato, escova os dentes logo, põe a roupa rápido e mastiga algo trivial e engole. E corre, e volta pra buscar as chaves. Desce as escadas com pés afoitos, esquecendo-se de diversos degraus, e faz a mão passear pelo bolso, procurando uns trocados sujos para a tarifa do ônibus. Que caro esse ônibus! E ele não espera, ele às vezes nem para, nem te olha, ou olha na tua cara e vai embora. Quando te acolhe, não raro é num calor abrasante, te pega nos braços e queima teus miolos, te escorre roupa a baixo, te sacode num ritmo apressado. Tu em pé, eles em pé, o suor em tua testa, o suor na testa deles, oitenta quilômetros por hora lhes comendo vivos.


Está tudo muito quente em tua vida. Tua cidade, teu bairro, tuas ruas e calçadas, tua cozinha e tua cabeça. Até a água do chuveiro elétrico desligado, por vezes, te escalda, fere tua pele e te contorce a face. O sol emana um fogo que te afoga, que te cansa, e a sombra já não te cura mais de nada. Porque toda essa fúria dos dias cálidos não esfacelam tuas angústias e teus desgostos como esfacelam a ti. As labaredas da rua não queimam a lenha que os desgastes dos dias produziram, não queimam tuas tarefas enfadonhas, não queimam tuas contas com o diabo, tampouco queimam teus desejos ambiciosos.


segunda-feira, 7 de março de 2016

Ode ao álcool

Às vezes o que queremos é entrar no clima de falar o que nunca falamos e agir muito mais fielmente com o que está em nosso interior. A intenção é sempre descontrair, claro, mas inevitável é que os pecados e os maus presságios se afogam em todo esse relaxamento. Se afogam em desespero dentro de um corpo que se debate em gargalhadas, expele palavras chulas e faz da sexualidade uma entidade divina.

Vamos permanecer ali sentados até que por nossos lábios passem novidades em direção a ouvidos já conhecidos e que nossas bochechas adormeçam, juntas com todos os moldes morais que nos causam desconforto, e uma doença chamada compostura. Essa anestesia se abrange ainda mais e atinge nosso constrangimento, nosso pudor, que passam a ser sentimentos mortos dentro de uma infinidade de coisas boas ou, no mínimo, prazerosas.

Arrancamos a compostura das vísceras, do estômago, do fígado, e a penduramos num varal, só pra não perdê-la de vista. E surgem então as risadas sem explicação, aquelas que são as mais gostosas. Surgem choros de lágrimas que foram bebidas previamente e alegrias que logo mais irão embora. E, claro, possibilidades perigosas que podem ou não nos pegar pela nuca e soprar a compostura pra longe.


No final de tudo a gente talvez não se lembre dos grandes fatos embebidos em petulância e despudor. Talvez aleguemos que jamais repetiremos a dose (ou as doses), mas assim como a tal da compostura, os sentimentos precursores de toda essa admirável bagunça são recidivos. E daqui a alguns dias ou semanas estaremos ali de novo. Porque temos toda a legitimidade do mundo ao querermos escapar um pouquinho de nós mesmos.

sábado, 21 de novembro de 2015

Te vivo

Meus pés deslizam sobre os teus algumas vezes por semana.
O resto dela passam procurando por ti.
Meus lábios gastam dias inteiros gastando os teus,
E logo depois reverberam todo o teu gosto.
Em uns poucos e iluminados dias eu me atraco com toda a volúpia de tua carne, coleto rútilos do teu espírito.
Em todos os outros eu te tenho sem te ter. Presença e cheiro. Lembrança e arrepio.
Visto tuas roupas em vez das minhas, sinto teu perfume no lugar do meu. Me olho no espelho e vejo a boca tua, cada sorriso me lembra o teu.
Tem dias que espalho meu corpo sobre ti,
Tem dias que te busco nos vazios de minha cama.
Nuns dias te enxergo, e noutros te preciso.
Tem dias que te tenho. Tem dias que te vivo.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Meu acerto

Tu é como a lua às seis da tarde.
Bela,
em toda sua imperfeição.

Te levo comigo
no peito e nos olhos,
e no vago dos minutos tranquilos.

Te esqueço e depois resgato,
me perco e depois me acho
em passos leves e despreocupados
que surgiram depois de ti.

Tu é meu antídoto semanal,
é minha cura do mal
e meu refúgio de mim.

Tu é errado como minha gramática,
te ponho em prática
e soa melhor assim.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Castelo de cartas

Eu vivo na calma das horas, nas brechas dos dias, nas sombras lá fora. Meus fantasmas são esculpidos com exímio talento e guardados detrás da estante, embaixo da cama, dentro do sótão da consciência.

E apesar do meu olhar caído em manhãs indigestas, apesar dos gritos internos de horror em noites claras, o que os ofereço é apenas um pouco mais do que surdez e cegueira cínicas. Se debatem em intenso desespero enquanto os cubro com lençóis vagabundos e mal confeccionados, que comprei num mercado de ilusões baratas.

Os buracos se abrem no tecido fino e passo a costurar retalhos de pensamentos aleatórios num espectro cinza embaçado. Remendando remendos, enganando a qualquer um exceto a mim.

Espero algumas respostas me pegarem no colo e a elas me ato. Num nó cego, num nó farto. Mas a linha logo arrebenta, ela sempre arrebenta. O submundo Consciência deixa o preto e branco pra trás e passa a ser vivo. Vermelho sangue, amarelo sol. E eu vou a baixo, numa queda fragmentada, numa queda justa, pelo precipício que ajudei a construir.

domingo, 26 de abril de 2015

O gato

Me enrolo nas horas do dia e adormeço.
O sol lá fora já me conhece,
Se entristece,
Mas tem a virtude da constância, que desconheço.

Desperto atordoado e os fantasmas emergem.
Dou as costas, dou de ombros, bato o rabo,
Destruindo almofadas de enfado,
Percorrendo um corredor em duas horas.

Imóvel, reviro as merdas da vida.
E Tento escondê-las embaixo da areia
Que me sobrecarrega pela manhã e à tarde,
Na volta e na ida.

Eu tenho lambido esses dias chatos,
Esses trabalhos fartos,
Que por vezes me castram de prazer.

Mas a bola de pêlos ganha corpo e se revolta,
Busca o fantasma atrás da porta,
E um dia ainda vomito
Tudo o que me faz sofrer.