quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Tu

 A quem chega teus pensamentos frívolos de manhã qualquer? O primeiro olhar que lança ao espelho de um dia gordo é só teu. O último também. A picada ardente de mosquito no mindinho da mão esquerda e a boca do moço que achou atraente no ponto de ônibus. O percurso da tua viagem ao trabalho e o que reparou ao longo das avenidas. O calor e o cansaço. A parte do teu corpo por onde o suor mais escorre e aquela lembrança de outro dia - que da forma como vem a ti, só existe assim: em ti. Aquela mania, umas duas fobias, o chão sujo do teu quarto, e a real sensação daquela alegria. O incômodo com tua barriga, o teu perfume de sempre, teu pesar não dito e a autoestima anunciada em teu sorriso imperfeito. Teu desenho mal feito. Tua voz embargada. O mais obscuro pensamento e ambição incubada. Quem saberás dizer de ti melhor que teu peito? Nem o tempo de uma vida inteira, nem amor ou amizade perene. Antes de se estender e desabrochar em braços de outras relações, é contigo mesmo que o mundo conversa. É na solidão do teu cerne que ele nasce e desperta.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Boa noite

 Por que não sobre isso aqui? Estou tentando dormir faz duas horas. Por que não sobre isso aqui? Que verão atípico, esse, Rio de Janeiro. E que livros empoeirados aqueles ali. Até que fiz bastante coisa hoje, mas ainda preciso terminar o texto pra aula de amanhã. E essa fresta na caixa do ar condicionado? Barata, aranha, lagartixa... Melhor nem pensar. Preciso pôr essa cortina pra lavar - talvez os espirros sejam por causa disso. Eita, as roupas na máquina. Coloquei a comida na geladeira? Tô ficando com fome de novo. Por que não sobre isso aqui? Preciso decidir o que fazer no meu aniversário... Embora eu sinta que essa é uma pressão muito mais externa do que interna. Que chato ter que organizar e decidir qualquer coisa porque nasci dia tal e ele se aproxima - ao mesmo tempo, que delícia ter vários amores reunidos. Nossa, já vou fazer vinte e sete - o dobro disso já é cinquenta e quatro. Me sinto um adolescente às vezes. Por que não sobre isso aqui? Amanhã minha primeira aula é às sete, acho que vou de uber pra poder dormir um pouco mais. Tenho que parar de gastar tanto com uber. Mas gasto tanto com besteira... Conforto pra ir à faculdade podia ser prioridade. Ou esse sou eu tentando redimir minha preguiça matinal apenas. Acho que vou tomar outro banho; banho gelado talvez me desperte ainda mais. Mas banho quente nesse calor? Por que não sobre isso aqui? Queria levantar pra ver o céu da janela da sala. Preciso controlar essa vontade de comer doce. Faz um tempo que não visito minha avó; esse fim de semana eu vou sem falta. Será que minha tia tá bem? Vou mandar mensagem. Saudade de minha mãe. Vou rezar. Por que não sobre isso aqui? Quem é o louco que buzina uma hora dessa? Meu Deus, as pessoas. Meus Deus, O Brasil. Os canalhas, os golpistas. Por que não sobre isso aqui? Vai dormir, porra! Vai dormir.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Poeta


 O silêncio é meu poeta favorito

 - Que na vertigem de si mesmo

Me sussurra de formas outras

Aquilo que já foi dito


E no anagrama derradeiro

Refeito de letras e rimas

Reafirma que o agora é ligeiro

Diz ainda que o nada é bonito

- Repito:

O silêncio é meu poeta favorito

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Rochas

 Pra onde vai o choro que não escorre sobre a pele? Aquele que a garganta não deixa passar e devolve quente ao coração. Aquele que faz o corpo tremer e doer por dentro, mas que não macula nossa imagem diante do espelho. Aquele que por vezes nos petrifica e desnorteia nosso pensar, nosso olhar e até nossos movimentos. Acho que chorar a seco dói bem mais do que mergulhar na dor - é mais fácil nadar em nossa água do que em nossa areia. É mais fácil se entregar a supostas fraquezas do que se considerar rocha. Aliás, tamanha tolice é adotar tal postura, uma vez que as tempestades sempre vêm e nossas pedras sempre rolam; nossos sedimentos vêm a baixo de uma forma ou de outra. O perigo é que, ao guardar muita água no peito, nossos deslizamentos podem afogar até quem mais amamos. 



terça-feira, 21 de junho de 2022

Tempo do mundo

 Viver no nosso tempo não é viver no tempo do mundo. E ao mesmo tempo é, já que aqui estamos. Hoje meu dia teve cinquenta e duas horas e eu não fiz muito além de lavar uns pratos, comer coisas triviais e assistir coisas que amanhã não vou lembrar - aliás, é muito disso que se tratam muitas das coisas que são consumidas nos tempos daqui: a descartabilidade crônica, os estímulos meramente visuais a todo momento, os sentimentos efêmeros transbordando por todos os limites. Não podemos perder o último lançamento daquele artista do momento porque não vamos saber o que falar na mesa do bar no dia seguinte - e perder um lançamento tem significado não assistir exatamente no dia. Não temos muito tempo. Aquela coreografia hit precisa ser memorizada até o dia da festa pra gente não ficar apenas dando goles em nossos copos alcóolicos e cantarolando alguma coisa. Não temos muito tempo. As notícias, ainda que pertinentes, àqueles que vivem de informação de segundos atrás, não podem ser da semana passada, não servem se não borbulharem o cérebro de tão quentes que estão; um assassinato bárbaro de dias atrás não é mais notícia hoje. Vamos todos ficar de cabeça baixa e com olhos atentos ao espelho negro que carregamos em mãos e rolar a tela o mais rápido possível então. Precisamos das últimas músicas, dos últimos memes e dos últimos stories. Temos que ser os primeiros a terminar aquela série, os primeiros a poder dar um spoiler, os primeiros a chegar com aquela informação no grupo de amigos. Ter informação também é chamar a atenção para si. Aí só resta nos desdobrarmos em trinta pra darmos conta de diversas esferas de (des)informação ao mesmo tempo e termos a sensação de que estamos muito mais no presente do que os outros - ou muito mais no futuro que inventamos. Mas que absurdo não captarmos a referência de qualquer coisa que seja, não é mesmo?! Que atraso. Bom mesmo é saber de tudo, nem que seja um pouquinho, nem que seja só pra parecer que sabemos de fato. Então vamos continuar engolindo tudo sem mastigar - de preferência, queimando a boca -, sem questionar se realmente gostamos ou se nos faz bem, robotizando nossas reações ao chega, sem nos aprofundarmos muito em nada. Pra quê? Que é pra dar tempo de comer muito mais. Que é pra ter muito mais o que vomitar depois.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Habitat natural

 Acorda quando não quero e dorme quando não posso. Se treme inteiro quando deve apenas sorrir e ser solícito. E reclama das noites mal dormidas, das noitadas bem aproveitadas, das comidas por demais gordurosas e do sol sobre a pele pura. Demonstra nas olheiras e nos cabelos ressecados que está de mal comigo, se faz meu inimigo e diz que a culpa é toda minha. Transborda uns sentimentos sobre meu rosto vez ou outra - quando o exponho àquilo que fala alto demais a ele, ao que arrepia a pele e entope completamente meu nariz. Me felicita com pulos e movimentos quaisquer quando a música é muito boa, e bate na cama com músculos doloridos na manhã seguinte. Procura banheiros, para em espelhos, se protege do frio e se esconde do sol em Dias de Rio de Janeiro. Pede por açúcar e por macarrão, se curva ao sentar à mesa e depois se ajeita, se curva, se ajeita. Se rasga e se cura - sangra por dentro ao sorrir por fora. Se coça, se cheira, se lava e se penteia. Se olha, se arruma, se ama e se odeia. 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Metalinguagem

Engolir toda a poesia,
a imagem de anestesia
que inebria e reseta o dia
e faz o meu corpo viver.

Colher teus frutos
no voar das horas,
no mundo lá fora,
no cais do prazer.

Dormir na copa
de tuas árvores
para quem sabe
conseguir bem viver.

Despertar com teu sol
em meus olhos e boca,
me vestir com tua roupa
pra jamais
te esquecer.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

À minha mãe

"Estás ausente.
Mas há no amor
como que eterna
sobrevivência.
É como rosa
que não se corta
e nem se colhe 
pela manhã.

Estás ausente.
Mas este amor 
é bem aquele
feito de estrelas 
que persistiram
até que o dia
se aproximasse.

Estás ausente.
Viva e perene
nestes abismos 
do pensamento."

 (Hilda Hilst) 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

"Antes soubesse eu 
o que fazer com estrelas na mão.
Se dilacerar-lhes a ponta 
ou simplesmente não tocá-las.
Se estão perto cegam meus olhos.
Se estão longe as desejo.

Antes soubesse eu 
o que fazer com estrelas na mão."

         (Hilda Hilst) 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Tarde

 Me esvazio de sentidos

no escurecer das horas;

ao anunciar-se a noite tardia,

o gozo me apetece bem mais.

A poesia toma forma lá fora

e, como faço no findar dos dias,

me ponho a verter seus sinais.