quinta-feira, 12 de maio de 2022

Habitat natural

 Acorda quando não quero e dorme quando não posso. Se treme inteiro quando deve apenas sorrir e ser solícito. E reclama das noites mal dormidas, das noitadas bem aproveitadas, das comidas por demais gordurosas e do sol sobre a pele pura. Demonstra nas olheiras e nos cabelos ressecados que está de mal comigo, se faz meu inimigo e diz que a culpa é toda minha. Transborda uns sentimentos sobre meu rosto vez ou outra - quando o exponho àquilo que fala alto demais a ele, ao que arrepia a pele e entope completamente meu nariz. Me felicita com pulos e movimentos quaisquer quando a música é muito boa, e bate na cama com músculos doloridos na manhã seguinte. Procura banheiros, para em espelhos, se protege do frio e se esconde do sol em Dias de Rio de Janeiro. Pede por açúcar e por macarrão, se curva ao sentar à mesa e depois se ajeita, se curva, se ajeita. Se rasga e se cura - sangra por dentro ao sorrir por fora. Se coça, se cheira, se lava e se penteia. Se olha, se arruma, se ama e se odeia. 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Metalinguagem

Engolir toda a poesia,
a imagem de anestesia
que inebria e reseta o dia
e faz o meu corpo viver.

Colher teus frutos
no voar das horas,
no mundo lá fora,
no cais do prazer.

Dormir na copa
de tuas árvores
para quem sabe
conseguir bem viver.

Despertar com teu sol
em meus olhos e boca,
me vestir com tua roupa
pra jamais
te esquecer.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

À minha mãe

"Estás ausente.
Mas há no amor
como que eterna
sobrevivência.
É como rosa
que não se corta
e nem se colhe 
pela manhã.

Estás ausente.
Mas este amor 
é bem aquele
feito de estrelas 
que persistiram
até que o dia
se aproximasse.

Estás ausente.
Viva e perene
nestes abismos 
do pensamento."

 (Hilda Hilst) 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

"Antes soubesse eu 
o que fazer com estrelas na mão.
Se dilacerar-lhes a ponta 
ou simplesmente não tocá-las.
Se estão perto cegam meus olhos.
Se estão longe as desejo.

Antes soubesse eu 
o que fazer com estrelas na mão."

         (Hilda Hilst) 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Tarde

 Me esvazio de sentidos

no escurecer das horas;

ao anunciar-se a noite tardia,

o gozo me apetece bem mais.

A poesia toma forma lá fora

e, como faço no findar dos dias,

me ponho a verter seus sinais.


segunda-feira, 15 de março de 2021

Ouvinte

Choro porque preciso dizer a mim 

densas coisas.

E assim também canto, 

para bradar a mim coisas outras;

tal qual escrevo, 

é claro, 

para ouvir de mim

algumas coisas.


terça-feira, 2 de março de 2021

Silêncios


O sufocamento e o rebuliço do meu peito sobem à garganta e têm gosto de você. Gosto de dúvidas, de incertezas, de confusão. Gosto de um tanto daquilo que eu deveria ter gritado antes. Efervesceram e borbulharam aos meus olhos há pouco. E então escorreram no rosto que anteontem tu beijou.

Deveria eu sentir menos para ter paz então? Não. O que sinto são partes de mim e podem ser partes que não tomei ainda, que não engoli, que não aceitei, que varri para baixo do tapete. Varri para baixo do tapete ao tentar nada transparecer, ao sair completamente armado, ao agredir, ao tentar me distrair em outros braços. Talvez eu reconhecesse esses erros de alguma forma e aquelas desculpas foram sempre a você, quando, na verdade, deveriam ser pra mim.

Desculpas, então, a mim... Que me vi no centro de uma teia de sensações e não as reconheci como minhas. Teias frágeis, de vidro, à disposição de outro. É claro que eu não queria aquilo. É claro que eu estava com medo. E ao tentar me proteger, aprendi que me esconder de mim mesmo pode fazer tudo ficar mais dolorido. Afinal, pra onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Vidraçaria particular

 Sentado no banheiro, os azulejos me olhavam com olhos gigantes. Cada um, um problema que inventei. Uns fantasmas que criei e que por vezes alimentei com fartura, alimentei com meu corpo, com meu tempo, com meu desgaste. Me olhavam os olhos dos meus medos, os olhos dos meus anseios atordoados, olhos do corpo que eu deliberadamente debilito, da mente que me bota de castigo e de uns desejos que não permeiam a necessidade.

Me olhavam através de azulejos retangulares, cada um em seu devido espaço, me sussurrando coisas, me mostrando outras, me gritando e me extremecendo. Também tinha a culpa, claro, que me olhava de cima, espaçosa, o teto todo pra ela. No espelho, o reflexo de umas relações mal cuidadas, porque eu precisava tomar conta de mim primeiro.

Tem dias que o cômodo mais convidativo da casa é o banheiro realmente. Pulo dentro da parede, me forço a caber naquelas arestas e divido meu claustro com um monstro imaginário, mas que é vivo e tá sempre por ali. Às vezes conversam, às vezes não querem nem ouvir. Já matei alguns - afoguei na privada, dei descarga e me senti mais leve. Outros, têm toda minha atenção, embora exprimam ordens e ditem regras violentas.

Fácil pensar que o melhor que eu faço por eles - e por mim - é parar de lhes dar a dosagem diária de ração, é negar um gole sequer de água, negar uma palavra e até uma olhada. Talvez eu devesse mesmo enxergar essas paredes de outra forma, com azulejos feitos de vidro, um vidro frágil, com espessura de papel e cor de ar. Deveria conseguir ver claramente através deles. E então poder quebrar um por um, acertá-los em cheio com um picador de gelo e dividi-los em milhares de partes solitárias. Ouvir os urros agudos de algumas dores se esvaindo para longe. Varrer, então, umas partes podres de mim do chão. E tomar atento cuidado para não pisar nos meus cacos pelo meio do caminho.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Insônia

  Queria me deitar sereno, sem rituais que não funcionam. Queria não conhecer cada minuto das madrugadas longas e não ser tão familiarizado com cada centímetro dessa cama. Queria não perturbar o sono do travesseiro e do lençol toda vez que meu corpo surta. Queria não dissecar desesperadamente esse teto de angústias, essas paredes de compromissos relativamente distantes, esse guarda-roupas de sonhos longínquos e esse ar de afazeres do amanhã. Queria não me abrigar no chão numas noites meio estranhas... E tampouco ser bailarino de uma mente tão dançante.

  Não me levantar sete vezes e me satisfazer com a temperatura do ar condicionado. Não lembrar que amanhã existe e deixar o céu da noite em paz. Não ter um celular, não ter que planejar, nunca me preocupar e nem sequer pensar. Queria eu. Queria eu... Nada de braços dormentes e costas coçando. Nada de dor de cabeça ou coração palpitando. Levantar às 3h pra despejar coisas no papel em branco? Nem em sonho. E jamais atender as ligações dos meus demônios.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Tempo


Existir no tempo que toca tudo,
tempo que tudo toca.
Tempo que transforma a poesia,
tempo que a poesia transforma.

Falar sobre o agora que já não o é
e sobre o futuro que não se sabe se será.
Viver à espreita do nada e da incerteza 
porque o passado não foi o que planejara. 

Sumir das horas e voar aos ventos, 
desgarrar dos ponteiros, olhar pra dentro,
flutuar para além em algum momento 
e só voltar quando o relógio gritar.

Se atracar com os segundos então, 
e sangrar as nebulosas exigências do tempo.
Correr contra nem sei o quê,
ir rápido pra chegar não sei onde.

Vencer algo que nem existe
mas que é cru e vivo
e eu não sei onde se esconde.