sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Remissões
Pelo sofrimento inevitável causado num por outro, perdão.
Pelos esbarrões atrapalhados, desculpa.
Pelas mentiras bem contadas, perdão.
Por não comprar o presente, desculpa. Por esquecer o aniversário, perdão.
Desculpa por entrar sem bater e perdão por jamais querer entrar.
Desculpa pela demora da resposta. Perdão por não querer falar.
Desculpa por muita, muita coisa. Perdão apenas pelo que importa.
Desculpa o pequeno desencontro, a casa bagunçada, o riso inconveniente. Perdoa a humilhação, as verdades falsas, quem de ódio tá doente.
Desculpa, enfim, tudo o que passa. Perdoa, então, o que perdura.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Mergulho
Cada curva de tuas costas,
As omoplatas, a nuca.
Um vulcão ativado nas vísceras
E labaredas em olhos cálidos.
Dá lenha, dá ar,
Tenta apagar.
A boca nervosa
Que amordaça a consciência
E uma ereção no transporte público.
As flores que nunca cheirou,
As merdas que nunca comeu,
As drogas que nunca usou.
Te joga no lago misterioso
Dessa alma pouco explorada.
Afoga-te.
Vá ser turista de ti.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Volta
Parti e deixei sentimentos sublimes impregnados naquelas ruas, naquele quarto, naquela cidade. Trouxe comigo coisas novas, presentes para o espírito. Trouxe pedacinhos de amizades e cheiro de tinta. Trouxe a dor da lonjura e a expectativa da chegada. Sem suicídios pré-meditados, sem ciúmes exagerados no meio do caminho. Só uns prédios sujos com vergonha da gente, o sol quente, e um pouco de charme na fala.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Ser só. Estar só.
Sábado de manhã, em minha cama, lendo um livro, entra minha irmã em meu quarto e me sai com essa: "Igor, você é tão só!". Pegou alguma coisa e saiu, enquanto eu fechava o livro e franzia a testa. Eu? Sou só? Nunca havia parado para pensar sobre, mas já que a oportunidade bateu na porta, eu abri.
Bom, há uma diferença bastante significativa entre ser só e estar só, apesar, claro, da sutileza com que isso nos é apresentado no dia a dia.
Há, infelizmente, em grande parte dos lugares que frequentamos, pessoas que são sozinhas. Aquele garoto da festa que tenta sorrir e fazer o que os amigos estão fazendo, mas que, por alguma razão mais profunda do que um mal estar, não consegue interagir da mesma forma que o resto do grupo ou compartilhar das mesmas sensações. A moça que, na rua, anda correndo e olhando para baixo, rígida, assustada. Pessoas que se fecham pra tudo isso que tá aí, que tremem ao serem abordadas por um desconhecido simpático. Essas pessoas que podem estar no meio de uma multidão mas estarão sós, são sós.
Portanto, por serem assim, não é de se surpreender que prefiram estar sozinhas, livres desse medo de viver e abraçar o mundo. E é aí que se dá a confusão entre esses rótulos. Todos trancafiados em seus quartos, como saber quem está e quem é?
Estar só é simplesmente querer ficar consigo, ouvindo os próprios gritos, dialogando com os próprios medos. É se limpar de toda concessão que fazemos pra conseguir viver bem com os outros e passar a viver melhor com nós mesmos. Estar só é, antes de qualquer coisa, um convite à sinceridade.
Não que os solitários de espírito não o sejam ou não o façam, porém a distinção se apresenta quando estamos todos fora de nossos claustros, lidando com o mundo, com o outro. Ser só é triste e requer análise e atenção. Estar só, e bem, é apenas paz de espírito. É auto-acolhimento. É amor com as horas vagas.
sábado, 3 de janeiro de 2015
Piano
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Viva pra si ou morra por eles
O que é preocupante de verdade é esse espírito raso que a gente, por vezes, abriga. Essas trocas que fazemos em prol da nossa imagem diante dos outros, em detrimento de nosso próprio bem estar. Isso que pode fazer toda diferença lá na frente, por nos ter roubado o melhor de nós mesmos, sem termos ao menos nos dado conta.
Eu, por exemplo, já perdi as contas de quantas vezes já fui numa festa e não dancei porque tive vergonha, apesar da imensa vontade de correr ao encontro dos amigos na pista. Uma colega minha jamais sai de casa calçando chinelos, "Meu pé é horroroso!" - se justifica. Outra passa a vida se escondendo atrás de uma franja que detesta, "Mas é melhor do que deixar esse testão à mostra", diz. Sobre os que têm vergonha de dizer que pegam o busão todo dia para irem trabalhar ou estudar, eu prefiro nem comentar.
De quem estamos nos escondendo, afinal? Temo que seja de nós mesmos. Não que precisemos sair por aí adoidados, fazendo o que der na telha, mas há concessões e besteiras desnecessárias atrapalhando nosso caminho, nossa visão. O que espero é que deixemos nosso lado besta cada vez mais de lado, que peguemos a batata frita com a mão, que não tiremos o carro da garagem para ir até a padaria da esquina. Espero que a gente deixe de flutuar, aterrize. Que a gente pise no chão.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Descanse em paz enquanto pode
A gente cansa da nossa casa, da nossa escola, do nosso trabalho. Cansa das pessoas que a gente ama, das nossas roupas, dos nossos bichos, da caminhada. A gente cansa da gente.
E pior cansaço é o de si. Das mesmas manias chatas, daquelas ideias erradas. De algumas atitudes espontâneas, então... Estamos com fadiga, querendo voltar no tempo. Esse papo de se arrepender apenas daquilo que não fez é coisa de gente meio doida, que tem dificuldade em admitir fracassos e reconhecer erros. Ah, a gente cansa! Cansa mesmo. Esse despertador, o vizinho inconveniente, o interfone com defeito.
Mas sabe que é bom? É. Porque se somos forte e estamos exaustos, mudamos. Se cansando a gente entrega as chaves do carro a um amigo e vai de bicicleta. Se cansando a gente pede um aumento ao chefe, uma ajuda ao colega que é bom em matemática. Não joga os bichos na rua, mas pega mais uns dois. Não fica calado sentindo raiva, chama pra conversar. Se cansando a gente para a caminhada por alguns instantes, seleciona uma outra pista, toma um gole d'água e recomeça num novo ritmo.
Se cansando a gente bate a porta com força, vai ali na argentina, respira novos ares. Reconstrói nossa fé num mundo melhor para todos. Ligeiramente desnecessário é dizer que os cansaços mais cansados são os de maior potencial. Os pivores de grandes reviravoltas. Um mal necessário que sempre volta.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Pra não morrer de novo
Não te preocupa, não olha pra trás. Tenho feito alguns ajustes, tenho limpado tua sujeira. Uma nova ordem vem sendo instaurada. Mas dessa vez, aparelhos seletivos nas portas. E sem cristais ao alcance dos olhos.
domingo, 16 de novembro de 2014
Ida
Desenhei flores em teu caminho,
uma canção no silêncio de teus dias,
você dormiu, não viu.
Agora estou comigo,
procurando flores no caminho,
acendendo luzes na escuridão.
De ti não sei,
dou fé de que estejas sorrindo,
enquanto cantas outra canção.
sábado, 15 de novembro de 2014
Reclamações regressivas
Há uma tendência, da qual participo com afinco, da reclamação da boca pra fora. Reclamação sobre o que não incomoda de fato, sobre o que é tão simples, sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Minha reclamação vai, agora, pra esse tipo de bobagem que nos toma muito tempo e que amargura o que pode ser doce.
Hoje, sábado de tarefas zero, levantei cedo. Acordei sozinho, nenhum amor. Umas crianças gritando na calçada e passarinhos se comunicando com outra dimensão. A água do chá secando no fogo e o sereno invadindo parte da sala. E eu, conectado a mim, percebi a graça de estar comigo. E apenas isto.
