domingo, 22 de junho de 2014

Sexo casual

Entenda que você irá ao local com um propósito e que esse propósito será destruído pelo fogo. O fogo que incendiará a cama, o sofá, o banheiro, o chão. Quando teus músculos não mais estiverem enrijecidos, a camisinha estiver no lixo e o fogo apagado, é hora de ir. E o que foi dito em meio às chamas vira cinzas. Cinzas que você não tem direito de guardar num pote.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Proibido amar



Nunca me apaixonei por ninguém. Tampouco amei. Talvez eu tenha desenvolvido um sistema de segurança inconsciente, que me faz correr desesperadamente quando alguém invade um território indesejado e ativa sutilmente minha ternura. E eu devo correr rápido, me fechar rápido, me virar, cerrar os olhos e cessar as palavras. Eu não sei, não percebo. A sensação é de que nunca nem cheguei perto, nunca tive sequer um nó dessa coisa que pulsa em meu peito desatado pelo que eles chamam de amante.

Esses romances que leio não me lembram ninguém. As músicas de amor que canto não falam por mim. Os filmes apaixonados que assisto jamais imitam o que minhas retinas já reproduziram um dia. Nada disso me serve, nada disso provei. É como adorar laranjas sem nunca ter experimentado de seu doce e de sua azedura.

Mas vou continuar comprando as laranjas ou o que quer que caiba nessa metáfora barata. E elas estarão lá, prontas para serem completamente compreendidas quando meu coração resolver se rebelar. 

sábado, 31 de maio de 2014

A droga do pertencimento

Quem te pertence, não pertence a ninguém
Nem a ti, nem a ninguém
O amante, o caso da noite passada ou o grande amor de tua vida
Nenhum deles teu, nenhum deles meu, todos eles de ninguém 
E você, que também é amante, que de alguém é o caso, que por alguém é amado
A ninguém pertence
Por ninguém é herdado

Se te dizem que são teus, convenção ou tesão
Se te dizem "é meu", mesmos motivos em ação
Ama e transa, faz sorrir tua vontade
Não joga, porém, o jogo da propriedade

Porque nem uma canção de amor
Nem a declaração mais bela
Nem um milhão de rosas te farão dela

Nem as mais sinceras lágrimas
Nem a gigantesca vontade
Nem que tu queiras será dele propriedade

É certo que os ciúmes vem
É certo que eles vão
Assim como as paixões, sem perdão
Poupa teu tempo então
Cultiva a parte clara
Evita a desavença
Jamais possua
Jamais pertença












sábado, 10 de maio de 2014

Destinatário Mundo

Ei, mundo
Você podia me esquecer só um pouquinho
Me abandonar numa dessas tardes cheias de nada
Me virar as costas com desprezo
Me doar, me leiloar, me vender
Sumir de mim
Não é pedir muito
Me esquece atrás de uma estante qualquer
Me envia para o fundo do mar
Me deixa cair numa fenda
Me implode
Me chuta pra longe
E então continua teu ridículo espetáculo
Amadurece tua rudez e crueldade
Incentiva o ódio e aniquila teus inquilinos
Agita teus oceanos
Gira com aspereza
Mas não demora muito, não
Eu vou te observar de longe
Só volto quando teus céus não mais estiverem espessos
Quando teus leitos estiverem tranquilos
Quando me acordares sorrindo


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Montanha-russa

Vai, levanta. Levanta logo.
Essa escuridão que te cerca é de papel.
Rasga. Respira. Se vira.
Não rola nessa lama que te abriga.
Não insiste no vazio do perdido.
Não nada em areia movediça.
Enfeita a casa, balança o corpo.
Come um pedaço daquele bolo.
Vem aqui fora, encanta umas coisas.
Sobe no telhado.
Olha a vida de cima.
E então cai de novo.





domingo, 20 de abril de 2014

Estranho

Cheguei de cara fechada, num transe lindo. Entrei no banheiro e gargalhei em frente ao espelho. No banho, olhos fechados. Me olharam. Permaneci calado. Cheguei estranho e meu corpo não conta a ninguém o porquê. Não diz onde. Não diz o quê.

domingo, 6 de abril de 2014

Robots















This morning I've got a hangover
And I've discovered my money's over
That's ok cause there's little favors and credit card
And I'm getting naked on my yard

I hope salad for lunch cause I don't want extra-weight
I want a plastic surgery and never look like sixty-eight
I wanna be thin and blond like you
Someone told me I should get out of blue

Let me get into your ferrari
Take me out for an yacht ride
I'll let you touch my body
I assure I'll reduce my pride

You've never seen me on stages
You've never seen me on the magazine
I'm always on last pages
And I don't have a "fan machine"

I feel so sad and that's all
But it will pass
Oh, it will pass
Tonight I'm going to the mall







sábado, 29 de março de 2014

Como viver no meio de Lobos?

Como acreditar na inocência alheia quando tudo parece tão perdido e errado? Como saber se o sorriso não é dissimulado, o discurso é blefe e a boa intenção, volúvel? A gente vive numa imensa alcateia. De lobos mascarados que se penduram na evolução do todo em virtude de suas particularidades. Lobos que nem ao menos esperam o anoitecer para permitir que o instinto animalesco aflore. Eles não se controlam. Mastigam o novo, estraçalham o incomum. Te matam.

sábado, 15 de março de 2014

Escrever

Inquietação. Grito silencioso. Exorcismo dos demônios. Masturbação da alma. Uma pausa de dois minutos. Três. Quatro. Intensidade oscilando. Lágrimas caligrafadas. A veia aberta sangrando.



sexta-feira, 7 de março de 2014

Vazio




A noite de Quinta-feira foi tão vazia quanto ele se sentira naquele dia. E no dia anterior. E no anterior ao anterior. As frases do livro que lia já não lhe causavam a excitação de costume, as atividades que costumava fazer para preencher o tempo pareciam fracas e inúteis, os sentimentos ficavam cada vez mais frágeis, superficiais e opacos. Era como se as coisas houvessem passado para o estado gasoso e ele fosse a bexiga sem nó na qual elas deveriam permanecer. Ou pelo menos entrar pra fazer uma festa, tocar uma música, plugá-lo numa tomada sensações. Espetá-lo com uma agulha!

Sentir. Essa era a palavra que melhor soava aos seus ouvidos naqueles dias. Não desejava amar com extrema ternura, apaixonar-se cegamente, ou chafurdar em felicidade. Desejava se livrar daquela inércia interior que o consumia e transformá-la num evento incomum em seus dias.

Ele pensou demais essa semana. Foi ao banheiro e chorou em frente ao espelho. Aquelas lágrimas feitas de nada o disseram pra continuar tentando: troque o livro, ouça outro estilo musical, fale com desconhecidos, pule de um penhasco. Foda. Beba. Suma. Sai daí!