Como acreditar na inocência alheia quando tudo parece tão perdido e errado? Como saber se o sorriso não é dissimulado, o discurso é blefe e a boa intenção, volúvel? A gente vive numa imensa alcateia. De lobos mascarados que se penduram na evolução do todo em virtude de suas particularidades. Lobos que nem ao menos esperam o anoitecer para permitir que o instinto animalesco aflore. Eles não se controlam. Mastigam o novo, estraçalham o incomum. Te matam.
sábado, 29 de março de 2014
sábado, 15 de março de 2014
Escrever
Inquietação. Grito silencioso. Exorcismo dos demônios. Masturbação da alma. Uma pausa de dois minutos. Três. Quatro. Intensidade oscilando. Lágrimas caligrafadas. A veia aberta sangrando.
sexta-feira, 7 de março de 2014
Vazio
A noite de Quinta-feira foi tão vazia quanto ele se sentira naquele dia. E no dia anterior. E no anterior ao anterior. As frases do livro que lia já não lhe causavam a excitação de costume, as atividades que costumava fazer para preencher o tempo pareciam fracas e inúteis, os sentimentos ficavam cada vez mais frágeis, superficiais e opacos. Era como se as coisas houvessem passado para o estado gasoso e ele fosse a bexiga sem nó na qual elas deveriam permanecer. Ou pelo menos entrar pra fazer uma festa, tocar uma música, plugá-lo numa tomada sensações. Espetá-lo com uma agulha!
Sentir. Essa era a palavra que melhor soava aos seus ouvidos naqueles dias. Não desejava amar com extrema ternura, apaixonar-se cegamente, ou chafurdar em felicidade. Desejava se livrar daquela inércia interior que o consumia e transformá-la num evento incomum em seus dias.
Ele pensou demais essa semana. Foi ao banheiro e chorou em frente ao espelho. Aquelas lágrimas feitas de nada o disseram pra continuar tentando: troque o livro, ouça outro estilo musical, fale com desconhecidos, pule de um penhasco. Foda. Beba. Suma. Sai daí!
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Storm
Tente sempre evitar problemas. Mas se necessário for, encare-os. E não diga que vai ficar tudo bem o tempo todo. Porque a tempestade sempre vai embora. Mas tuas ruas podem permanecer alagadas.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Tempo
Tempo. Tu escorregando pelas entranhas de tua mãe e teus primeiros ruídos. Tempo. Tempo. O contorno de tua personalidade, tua pequena figura, questionamentos constrangedores, tua inocência cruel. Tempo. Tuas descobertas, palavrões, paixões, a primeira masturbação e teus pelos pubianos. Tempo. Sexo. Tempo. Amor, talvez. Tempo. Tempo. O mundo te engolindo e tu sorrindo, embriagando-se, caindo. Tuas obrigações, aquela reunião, um outro corpo em tua cama. Tempo. Teu sexo fraco, tuas dores, tuas varizes e exames. Tempo. Tempo. Tua pele sem visco, as unhas quebradiças, o cabelo opaco. Tempo. Teu andar arrastado, tua boca flácida, teus comprimidos acabando. Tempo. Tempo. Tua tristeza e sabedoria. A brancura de teus dias. E teus olhos se fechando.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
18
Ele não queria paz, nem silêncio. Ele não queria mais aquele contato constante com a tinta branca das paredes, com aquela cama bagunçada e com seu reflexo no espelho do banheiro. Queria transgressões libertadoras, horários confusos, dias de quarenta horas.
Mas ele tem tanto medo! E agora já tem 18. Saiu sem dizer pra onde ia, desligou o celular, falou com estranhos e falou sozinho. Falou consigo. De volta a sua casa, entrou no quarto e revirou algumas caixas, sentou-se no chão da cozinha e esvaiu-se em lágrimas. Queria mesmo era se jogar num mar de corpos vivos, permanecer exausto. Rir. Rir. Rir. E dançar com o diabo.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Alguns desejos
Que as coisas mudem para todos. Para melhor, se possível. Apesar de achar ligeiramente ingênuo e um tanto quanto inútil desejar melhoras maravilhosas, eu sei que isso todo mundo quer. E eu quase nunca acho que mudanças são ruins. E também não acho que devem sempre ser espetaculares. Espero que conheçamos gente legal, façamos novos amigos, conheçamos um novo restaurante, frequentemos lugares novos, passemos por ruas desconhecidas. Desejo mudanças.
Desejo que as pessoas estejam ao menos dispostas a ouvir as outras, mesmo sem concordar com o que está sendo dito. Que deixem suas ideias de mármore um pouco de lado, se abram para novas visões e reflitam sobre elas. Quero que entendam que discordâncias ideológicas e divergência de opiniões não são o fim do mundo. Que ninguém deve ofender ninguém porque um ou outro não concordou que se diz laranja e não cor de abóbora.
Que as pessoas interajam mais, falem mais, chorem no ombro de colegas, caso necessário. Na maioria dos casos, a introspecção não é uma coisa boa.
Quero que nos preocupemos cada vez menos com o alheio, no que diz respeito a frivolidades. O corpo, a roupa, o sexo, a cor, o corte de cabelo, o tamanho dos lábios.
Desejo também que nossos medos se tornem fracos e quebráveis, porque só assim conseguiremos lutar pelo que acreditamos e pelo que desejamos.
Desejo mais sexo a todos,
Desejo menos medos
E mais desejos.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Entulhos
Deitado, sem fazer nada, percebo: estou cheio demais. Não é o saco, nem é o estômago. Mas estou cheio demais. Contatos no limbo, cd's mudos, livros empoeirados, memórias que não me agradam mais, amizades em coma. Abro gavetas e me deparo com anotações de 2010, reviro uma bermuda e cai o ingresso do cinema de semana passada, olho o fundo do guarda-roupas e tenho flashes desgastantes. Numa casa, essas coisas seriam aquelas paredes descascadas e carentes de uma nova pintura, o quarto onde se guarda bugingangas, o espelho rachado, a sobra inútil do papel higiênico, a lâmpada queimada.Preciso mesmo é me desfazer de tudo isso, fazer uma fogueira, perder esses quilos a mais. Desmembrar esse polvo de vinte tentáculos.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Ateu também é gente
NOSSA, ele é ateu. COMO ASSIM ela não acredita em Deus? Ai, cruzes, nunca vai ser feliz desse jeito. Credo!
Esses são alguns dos comentários que já ouvi em relação a quem é ateu. É realmente assustador como grande parte das pessoas lidam com isso, como elas detestam quem não tem fé. Elas se assustam, se afastam, fazem cara feia, não entendem. Mas como assim não acredita em Deus? Todos têm que acreditar. É o certo. Não é?
Certo não. É o normal, o comum, o habitual. E quando as coisas vão contra isso, as pessoas fazem um alvoroço, relutam, prejulgam, xingam. E é daí que começam a surgir as ideias de que os descrentes serão infelizes, de que vai dar tudo errado na vida deles porque são seres amargos, ruins, sem luz, sem Deus no coração.
Pra essas pessoas, digo: vocês realmente não sabem o que falam. Vocês estão muito errados. Muito mesmo. Vocês estão errados por acharem que o outro está errado simplesmente por não acreditar no que vocês acreditam. Vocês estão errados e devem, urgentemente, começar a desconstruir essas falsas verdades desprezíveis que andam gritando aos quatro ventos.
Vou ser gentil e ajudar nessa desconstrução fazendo uma revelação bombástica pra vocês: eu tenho uma amiga que é ateia. MEU DEUS. ATEIA. Sim, ateia. Sem agradecimentos pelo pão de cada dia, sem preces antes de dormir, sem missa aos domingos. Sem fé, sem Deus. Ateia. E adivinhem só? Ela também ri, ela também se emociona, ela é sensível. Ela é uma pessoa maravilhosa e tem um bom coração. E acreditem, não tem Deus nele.
Então, por favor, parem com isso de julgar irritantemente o outro de acordo com o que vocês acreditam, de acordo com o que vocês ACHAM que é certo. Suas verdades são suas. Só suas.
Então pensem. Pensem sempre. Faz bem. Não dói. Eu Juro.
Esses são alguns dos comentários que já ouvi em relação a quem é ateu. É realmente assustador como grande parte das pessoas lidam com isso, como elas detestam quem não tem fé. Elas se assustam, se afastam, fazem cara feia, não entendem. Mas como assim não acredita em Deus? Todos têm que acreditar. É o certo. Não é?
Certo não. É o normal, o comum, o habitual. E quando as coisas vão contra isso, as pessoas fazem um alvoroço, relutam, prejulgam, xingam. E é daí que começam a surgir as ideias de que os descrentes serão infelizes, de que vai dar tudo errado na vida deles porque são seres amargos, ruins, sem luz, sem Deus no coração.
Pra essas pessoas, digo: vocês realmente não sabem o que falam. Vocês estão muito errados. Muito mesmo. Vocês estão errados por acharem que o outro está errado simplesmente por não acreditar no que vocês acreditam. Vocês estão errados e devem, urgentemente, começar a desconstruir essas falsas verdades desprezíveis que andam gritando aos quatro ventos.
Vou ser gentil e ajudar nessa desconstrução fazendo uma revelação bombástica pra vocês: eu tenho uma amiga que é ateia. MEU DEUS. ATEIA. Sim, ateia. Sem agradecimentos pelo pão de cada dia, sem preces antes de dormir, sem missa aos domingos. Sem fé, sem Deus. Ateia. E adivinhem só? Ela também ri, ela também se emociona, ela é sensível. Ela é uma pessoa maravilhosa e tem um bom coração. E acreditem, não tem Deus nele.
Então, por favor, parem com isso de julgar irritantemente o outro de acordo com o que vocês acreditam, de acordo com o que vocês ACHAM que é certo. Suas verdades são suas. Só suas.
Então pensem. Pensem sempre. Faz bem. Não dói. Eu Juro.
domingo, 24 de novembro de 2013
Algumas coisas
eu andei observando algumas coisas
escrevendo algumas coisas
fingindo algumas coisas
aceitando algumas coisas
trejeitos
textos
sorrisos
fracassos
eu venho desconstruindo algumas coisas
destruindo algumas coisas
quebrando algumas coisas
matando algumas coisas
ideias
amizades
copos
insetos
eu tenho falado algumas coisas
sofrido algumas coisas
esmurrado algumas coisas
almejado algumas coisas
merdas
angústias
paredes
paixões
escrevendo algumas coisas
fingindo algumas coisas
aceitando algumas coisas
trejeitos
textos
sorrisos
fracassos
eu venho desconstruindo algumas coisas
destruindo algumas coisas
quebrando algumas coisas
matando algumas coisas
ideias
amizades
copos
insetos
eu tenho falado algumas coisas
sofrido algumas coisas
esmurrado algumas coisas
almejado algumas coisas
merdas
angústias
paredes
paixões
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