segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Praia

Como eu queria bem aquela praia
A de brisa branda e maré serena
Ah como eu bem queria a tua praia
Que era pra mim real e mais terrena

Ardi por dias a fio debaixo do teu sol
Finquei dois pés firmes sob tuas areias
Até dispunha de travesseiros e lençol
Quando à noite sonhava algas e sereias

Agora, de muito não me servem as conchas
Que recolhi e trouxe a ornamentar o lar
Vazio nas pedras, nos peixes e nas pranchas
Já não devo, não posso mergulhar naquele mar.

sábado, 28 de outubro de 2017

Dentre os prantos e a despedida
A fúria de tua paixão
Bruta 
Indomável 
Descomedida

E dentre muitos e muitos pesares
A areia do teu mar 
Brandamente
Me polvilhou 
A vida.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Dois escritores

Leitura é pilar da criatividade do escritor. Leitura é exercício de organização de palavras, de entonação, de harmonia textual. Leitura é comida pra mente, que também precisa se nutrir daquilo que nós escolhemos. Leitura pode ser viagem estática. Passagem de ida e de volta. E quando a gente volta, sempre tem-se o que contar.

A mente que embarcou  e voou para outros ares não é a mesma que te aterriza na última página de um livro. Há de ter assimilado, há de ter compreendido, há de ter sintetizado, há de ter apreendido. Alguma, qualquer coisa. Há de ter sentido. Alguma, qualquer coisa. E tu já não és, portanto, o escritor que era antes.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Labirinto

As portas se batem e as paredes se fecham nesse grande labirinto que é tua mente, que é tua vida. Tu vacilantemente desliza pra dentro dos teus infortúnios e pensamentos envelhecidos e vencidos, quase que estragados, mas que tu não pôde tirar da geladeira. Não conseguiu, não pôde, pois jamais  deixou de comer deles, de beber neles, e de se afundar rumo a esse emaranhado de becos que cheiram à dúvida e te põem louco. Retos, arredondados, bifurcados e estreitos. E tu num abrir e fechar de portas maçante, incessante, e vai e volta, direita esquerda, e é não é.

Não queria o que agora deseja, escolhe o que jamais cogitara, muda o rumo como pestaneja, acha que vai parar; não para.

Faz é arrastar por caminhos tortuosos um monte de monstros que têm incerteza e indecisão como sobrenome. Alguns até consegues matar sob os olhos massacrantes e imperdoáveis do tempo. Outros te agarrarão o calcanhar e pesarão sobre teus ombros até daqui a uns dois anos, ou duas décadas, ou quem sabe até tu esquecer teu próprio nome.

Porque às vezes tu até dorme pelos cantos dessas ruas sem saída aparente, que na verdade estão cheias de gente correndo pra lá e pra cá. Abrem portas, fecham outras, passam pelo mesmo caminho duas vezes, três vezes, quatro, cinco, caem nuns buracos fundos e até tentam atravessar paredes. Tentam cortar caminho por onde não conhecem. O que conhecem?

Hão todos de compreender a palpável fatalidade que pode ser uma corrida contra o tempo. Pior: dentro do mais complexo e traiçoeiro labirinto que existe.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Céus caídos

Antes pudesse eu te garantir
estrelas preciosas no céu escuro do futuro.   
Antes soubesse eu que em nada interferiria
a calma de tuas tardes de paz nublada.

E se ao menos as noites

pras quais caminhamos
nos amparassem com certezas...
Gozaríamos descuidadamente
das constelações que sonhamos.

Imagina se não fôssemos então

a própria volatilidade.
Tudo que se esvai, tudo que se vai;
A estrela cadente,
o fogo de artifício.

Imagina se não fôssemos 
sequer humanos
e mergulhássemos juntos 
em eternidade.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"A rosa do amor
 perdi-a nas águas.

 Manchei meus dedos de luta
 naquela haste de espinho.
 E no entanto a perdi.
 Os tristes me perguntaram
 se ela foi vida p'ra mim.
 Os doidos nada disseram
 pois sabiam que até hoje
 os homens
 dela jamais se apossaram.

 Ficou um resto de queixa
 na minha boca oprimida.
 Ficou gemido de morte
 na mão que a deixou cair.

 A rosa do amor
 perdi-a nas águas.
 Depois me perdi
 no coração de amigos."

 (Hilda Hilst)

domingo, 13 de agosto de 2017

Valsa

"Fez tanto luar que eu pensei nos teus olhos antigos 
e nas tuas antigas palavras.
O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemos,
que tornei a viver contigo enquanto o vento passava. 

Houve uma noite que cintilou sobre o teu rosto

e modelou tua voz entre as algas.
Eu moro, desde então, nas pedras frias que o céu protege
e estudo apenas o ar e as águas.

Coitado de quem pôs sua esperança 

nas praias fora do mundo...
- Os ares fogem, viram-se as águas,
mesmo as pedras, com o tempo, mudam."

(Cecília Meireles)


sábado, 5 de agosto de 2017

Alô, alô, Marciano!

Alô, alô, Marciano! Aqui quem fala é da Terra e pra variar está tudo mil maravilhas. Gozamos de paz e flores pra tudo quanto é lado. Negócios vão de vento em popa e nunca se viu cidadãos mais felizes em outros tempos.

Dia desses, se quiseres, aparece por aqui pra darmos uma volta e enfeitarmos as ruas com lixo e pichações chulas. Te garanto risadas desesperadas e comida deliciosamente envenenada. Podemos caminhar a passos curtos, de modo a consumir com cautela o que se passa nas telas que carregamos conosco, enquanto ignoramos humildemente os corpos deitados nos cantos sujos do chão em que pisamos.

Vamos juntos assistir às séries e novelas mais faladas do momento pra termos o que comentar, pra ter do que gostar, pra ter algo a se apegar e sobre o quê discutir com colegas na manhã seguinte. Ah... A manhã. Pegaremos ônibus e não desejaremos um bom dia ao motorista, tampouco olharemos para seu rosto, a fim de manter o inconfundível sabor de superioridade em nossas bocas.

Teremos a rotina mais divertida que pode imaginar. Aplicaremos substâncias usadas em animais em nossos corpos e iremos ritualisticamente à academia porque, afinal, faremos parte da chamada geração saúde, e então exibiremos nossos músculos em público e em todas as redes sociais possíveis - com a única e exclusiva intenção de provar o quão saudáveis nós estamos, é claro; "o importante é ter saúde", diremos.

Vamos produzir dinheiro já sabendo que grande parte desse nos será roubada. Não te soa justo?

Vamos ao shopping comprar coisas e mostrar pra eles que podemos também, que somos também, que fazemos parte também. Não te parece terapêutico?

Vamos nos desligar e nos fechar completamente para qualquer assunto relacionado a política, pois convenhamos, quanta chatice! E não te põe mais confortável?

Vamos lá, vem pra cá, vai ser inesquecível. E em troca da experiência que hei de te proporcionar, peço apenas uma coisa: quando já não quiseres por aqui ficar, quando pra outro mundo desejares voltar, que tenha piedade. E me leve embora contigo.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Por Felipe Domingues

Te batizar de novo
Te nomear num traçado de estrelas
Em vez de Igor
Te chamar céu da noite
Livro de poesia
Escritor
Suco de uva
Gozo
Amor, por que não?

Te recriar nuns arco-íris da alma
Nuns possíveis construir teu nome
E cantar teus nomes perecíveis

Lua
Doce
Torta de limão

Gato
Por que não?

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Didática


Eu poderia fazer uma pesquisa, reunir recortes de artigos, te indicar uns livros ou te escrever um email tentando te explicar o que é, como é, quais as causas e efeitos. E te falar das sensações, das alegrias e das angústias. Entenderias? Eu sei que teria feito muito menos do que o suficiente. Teria feito quase nada, tendo o tal do amor como referencial.

Eu poderia te mostrar umas músicas então, e gritar com força cada verso. Poderia guiar tua mão até meu peito acelerado, te convidar pra um passeio a três e te contar a sensação de acordar a dois. Te falaria sobre a vida de antes e sobre a de depois. Caminharíamos por uns lugares eternizados em mim, e eu discursaria assiduamente sobre o que sentira ao estar ali. Tu saberias dos beijos, dos risos, das mãos dadas e da força que elas carregam. Suficiente? Nem perto.

Eu vou sair berrando pelas ruas, vou tatuar minha testa, dar uma baita festa e discursar no microfone. Vou me drogar e, em estado alterado, tentar tudo de novo. Vou te escrever cinquenta textos, te ler outros vinte, e te cantar tudo aquilo que toca aqui dentro. Vou invadir tua casa, derrubar as paredes e deixar umas notas na geladeira. E agora, sim? Não. Ainda não.

Eu danço, eu faço mimica, eu convulsiono na tua frente. Eu fico nu, eu mostro os dentes. Encho um copo com minhas lágrimas e te empurro goela a baixo, te dou um banho de sangue quente, te envio meu cérebro pelo correio. Arranco meu coração com uma das mãos e esfrego na tua cara.

Vê? Não vê.