Seria estranho pensar nele assim quando o conheceu, mas a imagem que tinha agora era marcada pelo forte aroma de cigarros. Era irônico pensar quantas vezes ele tinha insistido para que ela abandonasse aquele vício, enquanto que o efeito foi exatamente oposto. Era como se fosse o cheiro dela, impregnado nele. Seus pulmões eram semelhantes, assim como a melancolia, que nele, ela modelara caprichosamente. Ela refletiu um pouco, e não podia negar que tamanha ironia era divertida, uma espécie de degustação prazerosa da tragédia.
Após algumas sessões de respiração lenta e profunda, ela reuniu
forças, se alimentando apenas da necessidade doentia de observá-lo.
Levantou-se da cama desconfortavelmente fria, e foi vê-lo. Ele estava a
um cômodo de distância, mas ela sentia como se estivesse a uma distância
muitas vezes maior. Como tinha imaginado, ele repousava, de corpo e
mente exaustos, na poltrona também desconfortável. Ela se deu ao
trabalho de escrever um bilhete. Um bilhete bem curto para uma
despedida. Ali, disse que o amava, pediu perdão pelo egoísmo, e
desejou-lhe sorte ao tentar destruir nele mesmo, o que nela nunca tivera
conserto. Então, disse que a vida dele, a partir dali, recomeçaria, e
que ele reencontraria o caminho para a felicidade. Finalizou dizendo onde
ela estaria, e pedindo-lhe que não fosse procurá-la. Dobrou o papel de
modo que ele pudesse ser preso na caneta dele, e lhe deu um beijo longo,
porém sutil, antes de partir. Saiu. Foi levada instintivamente à rua onde tinha passado tanto tempo desejando o inalcansável e admirando o vazio. Um rio não muito profundo, e não muito limpo também, podia ser visto a uma altura considerável da ponte onde ela se debruçou, a ouvir seu coração acelerado, como se estivesse empolgado com a ideia de parar. Coragem. Ela subiu na grade de proteção. Abriu os braços, com todo o tom de drama cinematográfico. Não fechou os olhos. Caiu. Então respirou pela última vez. Adeus, Talita.
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